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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

Vizinhos

Um cão que ladra, ladra sem parar

dois cães raivosos ladram em uníssono

três cães da senhora que passava

que dando a outra face à mão do riso

dá tons castanhos ao verde jardim

um cheiro intenso a cão a merda enfim.

 

estremeceu o prédio, sonho em brincadeira

que a terra é autêntica máquina a lavar

a centrifugação está na cadeira

onde me sento diariamente a trabalhar

não culpo o vírus perseguir pulmões

mas as múltiplas centrifugações

 

um vizinho esquerdo do terceiro andar

que o volume da música não reduz

aos gritos e, a acompanhar, põe-se a cantar

parece uma mulher que dá à luz

não existem comprimidos para a dor

do meu cérebro, silêncio por favor!

 

caiu com estrondo sinto a terra abrir-se

não. É o meu vizinho que faz furos

nas paredes – coisas dele – põe-se a abrir

as fundações da terra, é cá dos duros

homem à moda antiga que não pode

ver berbequins martelos, pois não fode

 

os cães no prédio entrando largam pêlo

trazendo o cheiro a esgoto, tudo roem

o vizinho não sei como convencê-lo

de falar com seus cãezinhos que destroem

tapetes foram feitos para pisar

não para cães javardos urinar

 

as árvores e os cães assinalados

Camões se fosses vivo cantarias

os cães sujos e o odorífero calçado

que à porta deixam quase todos dias

nas escadas cheira a cão e a pé imundo

e de quem julga ser único no mundo

 

medissem nossos níveis de toxinas

chegaríamos aos níveis de Chernobil

o vizinho de cima tem duas meninas

simpáticas, porém ele é um ignóbil

a mulher uma máquina de lavar roupa

aos Domingos oiço-a a triturar a sopa.

 

incomoda-me isto, não por ser maluco

mas assusta-me ver como acompanha

a minha vida inteira no trabuco

a sonora gritaria sempre estranha

fechar e abrir gavetas de madeira

da cadela o dia inteiro a choradeira.

 

É um pandemónio, enfim, estou confinado

em mim decretei estado de emergência

psicologicamente estou em mal estado

que um dia serei levado de urgência

vão dar-me de vestir a bata branca

a ver se do manicómio alguém me arranca

 

Concedo que devemos ser pacientes

de facto, as pessoas devem existir

mas as que existem muito indiferentes

aos outros, não há puta que os parir

porque os parir no mundo já cá estão

esburacam-me a alvenaria do coração

 

minha guitarra a um canto pisca-me o olho

com seu vestido preto e madrepérola

como se perguntasse "e se fosse hoje

que me tocasses renovando as células?"

ligá-la má ideia não seria

talvez mudasse o andar da gritaria

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