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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

O leopardo

pergunto-me como és capaz manteres-te firme

horas seguidas mordendo unhas e polegares

estoicamente dedicada às tarefas irrecuperáveis 

que do ofício, menor de tudo, anónimos deram

 

anteriormente pensava estilhaçar-me em verso

(tusso) a mínima quantia dá-nos pão e azeite

(tusso, tusso) no inverno imoderado, rigoroso

de gritaria histérica das ambulâncias aflitas

 

não com toques mágicos ou filosóficos

somos iguais às pedras lisas nas conversas

conseguimos ler nas páginas verdes do musgo

nos troncos das árvores donde sopra o vento

 

às vezes pergunto-me se te reconheço sequer

teus olhos de felino possuído afável e feliz

evito pregar-te sustos ilícitos por não rasgares

os tecidos rotos às veleidades e rancores

 

na terrina da fruta, a banana, o pêssego

apresentam sinais de tempo, permanecem de vigília

constante às mãos que os escolhem saborosos

por vezes somos colhidos por mãos sombrias

 

há quem se esconda em caves subterrâneas

com seus brinquedos instrumentos de tortura

flagelam corpos provocam dor e são felizes

mas sou feliz por impedir que te aflijas tanto

 

meu amor, meu amor, não sais da cadeira eléctrica 

morresse amanhã e  permanecerias sentada

dando voz aos esqueletos vestidos de batinas pretas

de padre ou juiz, de noviça ou preguiça

 

hoje em dia, os cães levam-nos a melhor

já reparaste como lhes falam e lhes dão afecto?

uma criança órfã poderia ser salva

mas atrelam cães submissos, é poder sem querer

 

escrevo para lá da linha do horizonte

retornei como falcão que já caçou trazendo

no bico esta metáfora absurda e fantástica

de ser o tigre de bengala sem mandíbulas

 

às vezes sinto movimentações das placas

tectónicas detectadas pela eletrotecnia

sou filho bastardo da terra, mas hoje em dia

é possível ser-se filho pródigo do vácuo invisível

 

os rostos ocultos - quem nos quererá assim

como chitas em cubículos? O novo vírus

letal é reflexivo como cinema mudo em

sintonia paralela de realizador medíocre.

 

Tenho lido muita poesia surrealista, eu

não era amante dessas pinceladas abstractas

Tornei-me absurdo, mas reduzo-me a pó

muito antes de ser pó e voltar à poeira.

 

Há vícios terríveis não medidos no pulso

nem me detectaram no sangue que sou proscrito

preferindo andar à solta num cubículo sem

janelas abertas onde alcance o olhar do mundo

 

tivesse um saco de veludo colheria miríades

de estrelas e faria novas constelações

temos paredes intimidade suficiente

para voltarmos a ser no conforto macho e fêmea

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