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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

De manhã

Setembro 06, 2016

Bocejo, como o fulvo leão na savana

Tenho esta dor de chumbo dentro da cabeça

Do frenesim da vida, um mal que a todos dana

Na rotação do mundo que se move à pressa

 

A rádio tem a voz do amigo que nos conta

Hilariantes histórias das suas viagens

Porém, não as escuto, que a vida me aponta

O dedo, em direcção às cinzentas paisagens.

 

É logo de manhã que os versos vêem em bando

Trazem metáforas no bico ao coração

Palavra a palavra vão no papel pousando

Para que em verso fique eterna sensação.

 

De súbito, estremeço, um avião que passa

Abrindo os braços de aço, rugindo no céu

Sigo-o com o olhar, sonho que me abraça

Num voo vertiginoso de Ícaro só meu.

 

Viaja num silêncio de estátua de mármore

Ao lado, minha amada muda e pensativa

Seus olhos verdes são os frutos de uma árvore

Que o Amor achou por bem plantar nas nossas vidas

 

Gracejo, a ver se vejo seu lindo sorriso

A erguer-se como o sol laranja esta manhã

Para beber-lhe o sumo doce que preciso

Por que não venha inglório o dia de amanhã,

 

Eis que me olha primeiro, lânguida ensonada

Como se prometesse um reino imaginário

De súbito, sorriu em fresca água entornada

Senti-me carta escrita sem destinatário

 

Dizendo, num piar de ave que começa

O dia à procura de algo em seu abono

Os lábios movem-se pacíficos sem pressa

Esticando-se felina diz-me: “tenho sono!”

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