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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Templos

Outubro 19, 2005

Nem lágrimas, nem sal derramo nesta tristeza,
Tão inconvenientes em momentos de solidão:
Que oferece uma existência para além da beleza,
Enterrando-se na areia da deserta multidão?

Não quero nada. Nem amor, nem a agonia,
Nem alguém ajuizante do brilho deste tesouro,
Que escondido, encontrei. Sem ele, o que eu faria,
Sem felizes destornar em troca de inútil louro?

Que música se ouve além da diária funebre ária,
Que um gado descontente caminha sem prelado,
Sem estrela, mar à vista, cego na vida precária,
Dum bálsamo nas feridas desferidas, encontrado

São minúsculos pontos luzídios que do céu caiem
Nas mãos a honra escapa; ser digno é ser pirata,
Corro a outra riqueza: os olhos me enriquecem
Quando vejo a Lua, ao rio, oferecer prata.

Sonho excessivamente como forçado das galés,
Cantando numa fuga, espantando a fadiga,
Na ânsia que o crepúsculo lhe traga outras fés,
Palpáveis, mais visões que ter Santa como amiga.

Remando contra os ventos de áspera mudança,
Vejo o quanto é o nosso destino cruel,
Nos ciclos de humana chuva definha-se a esperança,
Dum só que vivo sente só o amargo sabor do fel.

Talvez seja uma gripe sentimental que se apanha,
De contagiosa gente que não trata de ter paz,
Onde é invisível aos olhos mas sentindo, estranha
O carregado ar e o peso que a chuva traz.

Despertos para um erguer novo de sol, o mundo
Acolhe o sofrimento semeado por alguém,
Que vence mais que a força do humano fecundo,
Treme a terra, o mar, invocado por Ninguém.

E na fragilidade de rostos pouco robicundos,
Das Odes mais alegres, longe do romantismo,
Sofre num queixume aos olhares mais profundos
Que enternece as almas horríficas no despotismo.

E se a Terra não treme, e o mar não se agita,
Contemos com o pouco que é tudo nesta altura,
Colhe-se das brandas chuvas que nos incita,
Nas vindimadas parras a uva mais madura.

Vinhos por deuses feitos não bebo: são irreais,
Talvez queiram beber saboroso licor humano,
Mas sirvam a eles taças: bebam, riam por demais,
Girem o globo azul sacudindo o que é profano.

Tombo na grã loucura feudalista de pensamentos,
Nem mente ou coração já me prestam vassalagem,
Conquisto os meus impérios vastos de sentimentos,
Sem receber mimosa, no escuro uma mensagem.

Pairo sobre os céus, olhando o horizonte,
Cinzento vivo desses caprichos vãos dos ventos,
Guardo as cores mais púrpuras, fogosas nuvens defronte,
Voando sobre vontades, plantando outros alentos.

Tempo me sobra para na paz parar um pouco,
Próprio ajuste de contas sem que a pena seja o sabre,
A mente em litargias lúgubres, divagações de louco,
Que vê mais do que o vulgo, que diz mais do que sabe.

Se soubesse essa verdade que se vende nos vitrais,
Por luzes iluminando o quão pouco de iluminados,
P'rá tumba os levaria como o que sabia demais,
De mistérios que seriam mais tarde revelados.

Ampla mente trôpega de conceito errado ou certo,
Sem princípio ou fim, subir e descer montes
Do verdadeiro ou falso enterrado num deserto,
Longe dos que contemplam para lá dos horizontes.

Escondam a vara de condão num espaço imenso,
Esvoace no abismo sem tempo ou incerteza
Contempla o Céu perdido, tão belo e extenso
Preso aos fascínios celestiais da pura beleza

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