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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Amo-te

Outubro 31, 2005

Como os ventos do Norte se foram,
Foram-se-me as frases eloquentes,
Tenho comigo tristes presentes,
As frases que os poetas adoram.

Que a solidão me seja inclemente,
Pois curvo a fronte presa tão pesada,
Como tenho eu a vida fadada,
Ansiando ser-me a vida sorridente.

Quebrei a corrente que nos torna,
Calorosos duma chama ingente,
Que amado, o fogo se nos forma,
Mais luzidio o mundo à frente.

Que erros, culpas, chagas? Todas tenho,
Se destemido amei, razão esquecendo,
Só posso sublinhar o que vou lendo,
Tendo um estar absorto vago e estranho.

Farei outros retratos dos risos teus
Negro humor crescido, riso alegre,
Que o rir a vida adorna e assim prossegue
Nos mil risos soltos teus e meus.

Que união divina é essa quando,
A vista ao tempo turva e célere passa,
Nele escritas frases como: "Me abraça,
No tempo, quando unidos, ía encurtando.

Se da lareira teu fogo falasse,
Que nos diria ele p'ra nós em brasas,
Será que o açoitamos quando as asas,
Batíamos, pensando que ele escutasse?

Se o brando ronronar dos ribeiros,
Na mente soasse claro como cristal,
Diria que passava pelos outeiros,
Floridos por um Amor monumental.

E a ternura tanta, a ânsia, o vício
Por ti em pensamento, sempre inquieto,
Que o coração pulava como desperto,
Quando me aliviavas do meu suplício.

E exaustos os dois adormeciamos,
Contando estrelas com luar fingido,
Pensando como nunca tinha sentido,
A pureza amorosa que sentiamos.

Que chama acesa sempre dura,
Quando o fervor se nos dissipa,
É flor que no Outono se constipa,
Quando na luz exposta na terra dura.

São versos sem que palavras existam,
Que só à Terra os anjos nos trazem,
Dos angélicos peitos que no céu fazem,
Poemas aos que no amor insistam.

Haverá melhor berço que vivo sente
Que viver afastado da luz
Sem vontade de amar novamente,
Amo a beleza que dele reproduz.

Vem dele tamanhas obras sublimes,
Que se elva aos Céus em adoração,
A luz que de nós extingue todos os crimes,
E no ar a alma paira em levitação.

Não procurei, apenas te encontrei,
Com uns olhos tão tristes marejados,
De lágrimas vertidas, nunca enxugados...
Musa: como irei amar como te amei?

De vedados os olhos caminhando,
Sempre em frente porque não te vejo,
Ao meu lado acordar, em ti um beijo
Na tua face saliente, depositando

E despertando em todo o esplendor,
Assistiamos abraçados ao amanhecer
Quem terás ao lado, meu amor
Alguém por perto no entardecer?

Que pares sentem exacta sintonia
Sobrenatural quase, quase sempre?
Que muitas vezes dela não me lembre,
E deles, os anjos guardem a sinfonia.

Porquê desenlaçar os laços todos
Das mãos, dos pensamentos alguns
Sei que comigo ficarão e nenhuns
Deles me lembrarei em feros modos.

Só em sonhos ver-te-ei de novo
Envolta em mim como selvática hera
Ou água bebida num forte sorvo,
Rugindo, jeito felino, como uma fera.

Não quero ao lado ver o dia raiar,
No exacto gesto róseo e manhoso
Talvez não escreva mais verso pomposo:
Sem ter teu belo rosto pr'a contemplar.

Não nego a fome, a sede que sinto,
Constante que inquietos nos torna,
Confesso ser incostante na vida morna,
Que sedes, fomes criam em nós (não minto).

Mas a saudade aperta neste abrigo
Que as palavras gentis me cedem,
Albergam-me, e em papel me seguem,
Em bando num negro diário comigo.

Retroceder para trás, não; olhando
Estendo em frente a mão no escuro,
Como procurando um qualquer muro,
Que nos ampare quando caminhando.

Qual dia que em ti não vou pensar,
Que versos amorosos não vou escrever,
Porque a dor terei que apartar,
Se nunca, Musa, te irei esquecer?

Porque haverei eu de te odiar,
Se me embelezaste mais o mundo,
E partilhaste o teu como no fundo,
A pedra recolhida do fundo do mar?

Teve o sentimento se nos revelar
A outra face em si ocultada
Dos astros um eclipse de luz, luar
Do Bem, do Mal ou verdade revelada.

Talvez fraqueje e não me segure
Ignoro porque teu nome não reclamo
Pois afastados, talvez assim perdure
O sentido de dizer-te como te amo.

Não existem Céus tão encantados
Que gentis nos oferecem as estrelas
No entanto, quantos sentem incomodados
Por escreverem sozinhos à luz das velas?

E se pudesse por ti trocaria,
Sem pensamentos alguns adversos,
Todos os meus livros de poesia,
E estar contigo seriam todos meus versos..

Se de mim brotei algo de grandioso,
Devo-te a ti, Divina Inspiração,
Pois não escreverei poema virtuoso
Se banir o teu nome do coração.

Caiem das árvores as secas folhas,
Como se por nós lágrimas derramam.
Sonharei que pr'a mim 'inda me olhas,
Com os felinos que, como eu, te amam.

















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