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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

CCCXL

Dezembro 05, 2005

Seria melhor não pensar tanto,
E eu que sei, sinto e entendo,
Pois ninguém na terra é santo,
"Estás bem?", sim: vou vivendo.

O que é viver, meu bom amigo?
Aponta a alma que viva bem,
Tento não ver nada, mas não consigo,
Se fecho os olhos, fecho-me também.

Sou o Ser Mais que Imperfeito,
O mais punido dos punidos,
É então que não me ajeito,
E solto meus choros contidos.

Do peito minha mãe doente,
Quantas mães por amparar,
Que merda isto, que indecente,
Não poder a mãe amparar.

Se tenho vivido? Tenho vivido,
Vivo como eu posso sem escolha,
Sou outro que à chuva se molha,
Comum de si embevecido.

Tento tanto calma plantar,
Nesta tremenda bebedeira,
De seres, pessoas sem pessoas,
Conhea de boa maneira.

Por isso vejo na minha mente,
Imagens do nosso passado,
Torno-me amargo e revoltado,
Porque se falo é indecente.

No fundo é um mundo dos fortes,
Dos beija-cús que da imagem,
Ocultam dos olhos mensagem,
De uma alma feita de recortes.

Porque a queixa de outrém não uso,
Usam-na sobre o meu ser,
Como da música que eu abuso,
Porque se julgam enfraquecer.

Qual respeito, qual igualdade,
Tenho bebido das suas almas,
Por isso perco todas as calmas,
Que plantei sem qualidade.

E agora que a Dor nos visita,
Ao seio materno qual o efeito,
Que nele gera quando aflita,
Da humana alma com vil defeito?

Talvez espantar essa doença,
Com a Alegria súbita que esmaga,
E receber dela ofensa,
Porque alegre à dor se paga.

Viver é vaguear na multidão,
Tão ignorado como um mendigo,
Que pede e mata a solidão
Com bocado de pão e abrigo.

Para mim viver é de impulso,
Como dar flores a alguém,
Mas sem forçar o gesto, o pulso:
É assim que belas flores se tem.

O que é, diz-me tu, viver,
Além do que sabe e aprende
Pensando que de tudo entende
Pois recusa no Amor sofrer.

É não virar costas a um amigo,
Depois dele nos ter magoado,
É não convertê-lo em inimigo,
E ter dele sorriso conquistado.



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