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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Saiba eu um dia ter incerto...

Dezembro 10, 2005

Saiba eu um dia ter incerto,
Perdão por ser quem sou, bizarro e triste.
Alma minha que nunca a ouviste,
Chorar por ser assim nada desperto.

Saiba o mundo mesmo o que mais amo,
Clareira tenho onde me resguardo,
Longe d´ árvores onde folhas guardo,
De outono, que por quem ninguém eu chamo.

Durmo vivo e tanto isso me inquieta,
Vai estando perto mais de mim a morte,
Com rostos que soube a negra sorte,
Deixando minha alma de boca aberta.

Nem sei que sonhos tenho ainda em mim,
Sei que inúmeros são e tempo curto,
Me resta, tempo que a ele não furto,
Sentir só o perfume leve do carmim;

Estar rosto rendindo ao sol que quente,
Tem leve fascínio de azul celeste,
Ah, porque a mim tu vida não deste,
A mim que me odeio - o caos na mente.

Pesa-me mais esta continuidade,
Eterno preso ao leme que não volta,
Ao mar de espessa água de ira solta,
De coléricas ondas da tempestade.

Nego sempre o querer néscio de quem,
Sequer entrou nesta mansão vazia,
Ah, ser vil, ninguém a alma esvazia,
Que vontade conserve quem nele a tem.

Fustigo quando ao espelho não me vejo,
O globo inteiro porque não me assenta,
Bem, manto que vela e se apresenta,
A Morte de hora incerta e negro beijo.

Olho pelos meandros de olhos baços,
Turvados pela oculta e verdadeira,
Das coisas a realeza desta canseira,
Bruma e névoa cedem a nós abraços.

Não me basta ver quem no palco é rei,
Terei de ver que esconde essas cortinas,
Quero assistir às orgias de meninas,
Fartas como eu porque nada sei.

Nada, seca, mirra, mata, esmaga
Perra, gasta, cansa num desespero,
"Então comigo vem", 'inda não quero,
Porque espero por quem me afaga.

E se por cá eu escolho, então me digo,
Que apenas com olhar ela trespasso,
À outra face não dou eu um passo,
Darei à vida, mas hoje... não consigo.

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