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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Um rio forte fluido e decorrente...

Dezembro 11, 2005

Existe de madeira, não de ouro,
A arca onde eu guardo meus segredos,
Onde guardo e escondo todos os meus medos,
O que exala de mim, é o tesouro;
E penso se mãos santas que conservam,
Serão de mim rebeldes guardiões,
Pois que não lancem chamas que ostentam,
Almas bravas de antigos centuriões.

Serei só majestade noutro lugar,
Por cá não escalei mais de que planície
Não afastei que entranha, a imundice,
Só demónios alguns fiz debandar.
Falhei. Eis o que a vida consente,
Como muralha por entre as ameias,
Deixam vento correr e nada sente,
A vida de outros ninhos ou colmeias.

Nem concebi tão sentido estandarte,
Dos exércitos que marcham em mim,
Ao toque de tambor tombam no fim,
Jazem nos campos verdes destarte.
Qual vento que soprado de jeito triste,
Varre as folhas secas velhas, caídas,
Tudo o que a vida fácil nos consente,
Será portões abrir daqui saídas.

E se portas de feixes foram feitas,
De luzes, histórias de livros por encanto,
Se abrem ao negro se sente de espanto,
Sorrirei porque são todas perfeitas.
E não sentir a chuva que nos cai,
O sol, a Lua, os rios, os mares, a alma,
Já que ninguém com ela fala e vai,
Vou eu, e vou sereno na doce calma.

Já nada digo; é seguimento meu,
Da anarquia que dentro me reina,
Que ao caos, à perdição me treina,
Tudo meu que ainda não morreu.
Já deveria esmorecer naa idade,
Que sumisso se é ao que nos pesa,
Dou ao paladino da mocidade,
O meu lugar, como jantar à mesa.

Noite de Rembrandt que a luz revolve,
Como das velas fumo se propaga,
Na ténue chama, frágil e se apaga,
Invade pequena luz e a envolve.
Mas fôlego nestas vias ainda respiro,
De ver o que desejo tanto ver,
Nem que seja a floresta meu retiro,
Sem toca, abrigo feito p'ra me esconder.

Da fonte etérea não bebi ainda,
Que revigora a alma, a epiderme,
Cantos tenho ainda mares que reme,
Contrária direcção onde tudo finda.
E colho, é claro, a própria claridade,
Os gestos, ventos, tiques de outra gente,
Carpir tudo é sentir a liberdade,
Um rio forte fluido e decorrente.

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