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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

Distante

Tão distantes meus olhos devem estar,
Nesta altura que voo nos meus sonhos,
Deles um Amor perto do seu mar,
Não lânguidos olhares, nem tristonhos.
Porque mentira vil ou fria verdade,
Inúteis são para onde voa a mente,
Minha; daí sonhar com a liberdade,
Que Ela o Amor a nós consente.
Não é vertiginoso nem duradouro,
Louco voo pr'a bem longe voando,
Espiritual saída é um tesouro,
Não quem sujo no ser vai mal deixando.

Sem que poiso aviste irei para onde,
Esta voz alta que, surdo de ouvido,
Por vezes o Homem, rei, duque ou conde,
Ouvi-la, para ele, não faz sentido.
Nada exista que a mente não possa,
Pobre de quem do ser não é ditoso,
Talvez o próprio seja que destroça,
E amansa um coração dele mentiroso.
Se, tirano, nos reina um medo dentro,
Em nós que em vários dentro, se propague,
Entrego-me à reflexão indo ao centro,
Ao medo para que não meu ser apague.

E é berço do que nos autentica,
Identidade aos olhos próprios nossos,
Acende-se a centelha que tudo indica,
Que fazer com uma alma em destroços.
Nascem poetas mil dentro de nós,
Que respiram de novo um livre ar
Em crescendo se ouve uma voz,
Do que somos, ousamos outro amar;
Sem grilhões que escassa certeza,
Nosso andar abrande ou prenda o passo,
Ah, se confiasse nesta firmeza,
Dêem-me a liberdade: verão o que faço!

Sinto o perfume da relva cortada,
Mesmo que nela deitado não esteja,
Abandono o corpo, tábua encostada,
A um canto, pois corpo sonho não beija;
E as flores, que o verde claro salpicam,
De cores que tingem deusas os véus,
Regatos, que murmúrios edificam,
Baladas a anjos que ouvem nos Céus.
Não! Não quero ainda olhar,
O que me espera, seca e adoece
Não! Ainda não quero voltar,
Para o lugar onde o meu ser esmorece.

Prende a mão que inveja nosso ardente,
Voo, quando para trás se olha,
O que se deixa fora displicente,
Duma razão que a rosa desfolha.
Avançarei cego de olhos abertos,
Madrugarei no tempo que me resta
Sem que pense em destinos certos,
Porque Ela servil, isto nos presta.
Certos são num papel nossos traços,
Da pena sequiosa de imprimir,
Um querer sem querer de mil abraços,
Dar ao mundo, puro sem fingir.

Que pretendo com frases vazias,
Encher quebrado o copo que quebrei,
Não são poucas as noites nem os dias,
Que pense no que ainda não alcancei.
Que me vale beber dum seco rio,
Se o astro me persegue na rotina,
Própria dele; vivo farto no estio,
Sem que encontre cá minha morfina.
Porque tudo é de louco devaneios,
Quem sente que o mundo é vago e baço,
Porque na mente solta seus arreios,
Logo causando ao vulgo embaraço.

No lajedo alado, andar tanto me cansa,
Nesta realidade nada que valha é feito:
Ah, mísero que sou, que não alcança,
Paz, que viu o sonho ser desfeito.

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