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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

O Amor Mais Que Imperfeito

Janeiro 09, 2006

I

Quando para trás, hoje, no tempo olhamos,
E a vista alcança dias sorridentes,
Vemos o quanto fervorosos amamos,
Sem querer um regresso, descontentes.
Se, lembrando, sorriso não se esboça,
Fazem, dias vividos no tempo, troça.

Porque não se amou como se devia
Palavras cativas dum incómodo medo
Que, livre, impede andar durante o dia,
Olhar se prende ao pedregoso lajedo.
Quem nunca pensou no tempo voltar
E um tempo ao nosso Amor, ponto emendar?

Só nos vale o que hoje é dito ou feito,
Convalescendo dum passado pendente,
Porque faz o medo não ser perfeito,
Sempre põe freio à alma incontinente.
Mas nunca existirá um fim, embora,
O que não se fez ontem, é tarde agora.

Vivemos aqueles verdes, claros dias,
Longe de serem os últimos, imortal,
As frases soavam sempre como melodias
Que espantavam puras o própria Mal.
São as mais fortes, primeiras paixões,
Assim se escrevem as mais belas canções.


II

Quem sabe que ao lado o Amor se senta?
Que sinais dizem um simples olhar,
No rosto ou áurea? Como se apresenta
Ao ver a semente a germinar?

Se do Céu desígnios, eu desconheço,
Sei só que contemplar é harmonioso.
Etérea beleza que vista, não tem preço,
Olhando o Céu, peito fica cremoso.

Guifelder, pelo equilíbrio primando,
Amargurado por frívolos amores,
Foi pelo escuro trilho continuando
Com suas amizades d’ assaz primores.

Era jovem, belo, um novo cipreste,
Um alvo rosto qu’ envelhece depressa;
Natura: que p’ra ele gosto tiveste,
Gerado num ninho em paz, sem pressa.

Mas ó Loucura que a Razão transvias,
Tiveste sem que fosse o teu desejo,
Que a encantaste como tu devias,
Sempre infantil, inquieta no ensejo.

O extremo se vive, se dela incauto
Ai de quem o Amor busca, ansioso
Que dilacera o ser e um dano alto,
O sentimento alto e venturoso.

Eis quando um dia segredo revelou
Causa inefável de um amplo sorriso,
Sua paixão ardente ele nos cantou
Sendo no cálculo da hora, impreciso.

O seio amigo aspergiu de alegria,
Sincero círculo, quase uma irmandade
Tendo no olhar um brilho daquele dia,
Mostrado, ingénuo, só pela mocidade.

É como esquecido livre navegar,
Pelo mar, olvido ao vento à vela,
Começo doce ainda sem se amar,
Trazendo no pensamento só o rosto dela.

Torna-se ar, poeira o mundo à volta,
Belas as flores, as aves, a Natureza,
Torna-se leve o corpo, anjo, por escolta,
Contempla-se a universal beleza.

Gira em torno a vida na pessoa,
As coisas pequenas tornam-se maiores,
Qual fluído anjo que uma ária entoa,
No começo assim em todos os amores.

Quantas vezes se escreve dela o nome,
Por ele se dando, tombada a fronte
No papel onde a pena expressa a fome,
É falso o estudo; assim o Amor se esconde.

A ânsia vence, invade-nos a Loucura,
Quando se espera dia que se torna a ver,
Quem se encontrou longe duma procura,
A dor em nós se deixa transparecer.

Conhece-se os primeiros, doces prazeres,
Abraços, beijos dados ficam por dar,
Deixa-se o pó chegar aos afazeres,
Fica-se louco por querer tempo parar.

As mãos do ninho doce se agarram,
Cega a alma, que outra alma, não vê.
Irónico como o Ódio e o Amor nos cegam,
É de questionar então «porquê?»

Os traços se decoram do corpo igual,
Que o rosto prende, na vida de clausura,
Todo o Bem revela a face do Mal,
Crescem nas mãos garras que dão ternura.

São pensadas as palavras por dizer,
É calculado o olhar, para olhar,
Deixa de ser sublime: fica o prazer
Fica-se nisto triste sempre a pensar.

Todo o simples torna dédalo mental,
O claro, claramente, ficou confuso,
Tudo, que se pensou ser eternal,
Mais não se pensa; pensamento difuso.

E o tempo passa; sempre certo, impiedoso,
Ritmo impresso, sempre certo, ao rumo incerto,
Fica aquele mundo tumultuoso,
Mesmo não se ficando dele liberto.

A realidade é repleta de mudanças,
Vive-se como se pode com o que resta,
Porém, quem ao Amor é de esquivanças
Tarde conclui que Amor, nele, não presta.

Todo o sonho que aos píncaros se chegou,
Desvanece ( nada pode ser perfeito).
Vê-se, que o vento leva e tudo levou
Desceram águas do rio, secou seu leito.

Sem traçar no chão, o destino oferece,
Quem com ele brinca como deuses loucos,
Tudo se transforma, nada desaparece.
Faz-se, da frase citada, ouvidos moucos.

E tresmalhado no tempo se andou,
Sem haver de vela uma luz acesa
À noite. Quem de Amor desesperou,
Honrou a esperança com vela na mesa.

Secaram os lábios como água na terra,
Perdeu pompa nos versos qu’ a ela escrevia,
Sem controlo assim na lama se enterra,
Sem querer ouvir quem ele sempre ouvia.

Subiu louco ao monte íngreme, agreste,
Para soltar grito que o mundo ouvisse,
«O que se passa comigo?» O sol investe
Nele, como as nuvens o encobrisse.

Exausto depois de ira solta, deitou-se
Recaiu sobre ele uma outra paz,
Sem conhecer a fonte, a ela, prestou-se,
E assim pensou: «... a ver o que ela me traz!»

Sentiu na fresca erva de olhos fechados,
Sem sonho, voz, sem ar que respirasse,
Viu-se andar por caminhos nunca andados,
Talvez por ali luz ele encontrasse.

Ouviu o que nunca ele tinha alto ouvido,
Sentiu que a beleza, com ele, falava
Pediu perdão à vida por se ter perdido,
Alegre, em comoção, convulso chorava.

Pensava que era tudo para ele o fim,
Como ele se enganava: era o início,
Sentindo o cheiro doce do jasmim,
E assim foi aliviando o seu suplício.

Sentiu a atmosfera do ar ameno,
Ergueu-se como assustado, e percebeu,
Ser grande pensava e sentiu-se pequeno:
Dizendo: «se alguém errado era só eu.»

Pensamos sempre que o erro nunca é nosso,
O inverso é também erro, simplesmente
Fácil quando a alma se atira ao fosso,
Que do fosso sair, curiosamente.

Sem voz de anjos, duendes, ali ouviu,
Na solidão que o monte lhe ofereceu,
«Sou como a nuvem...», e dali saiu
«...pelo vento levada.» E tudo esqueceu.

Já junto da sua amada, mas tão distante,
Daquela paz que há muito, não sentia
Ela falava-lhe num esforço comovente,
Pedindo Amor, mas ele, já não a ouvia.

Detinha a amada no rosto tristeza,
Com as cores da agonia e desespero
Mirrava, a pobre flor, aquela beleza,
De azul do antigo mar do grande Homero.

E quando as estrelas salpicavam o céu,
Num pranto, contava-as e assim esquecia,
Cobria, à noite triste, o rosto, o véu:
Se por ele deixada, ela morreria.

Deixou destino entregue ao iroso vento,
Que sopra oposto na direcção diferente,
À nossa, conforme o nosso pensamento,
Quand’ cinge a dor no peito, e forte, se sente.

Não se ama alguém asas prendendo,
O querer se molda ao pensar ser eterno
Oiçamos o calmo rio como vai correndo,
Sem pressa, plácido, sem ter ele governo.

Não se tem o Sol porque nos queima,
Não se bebe a chuva toda que afoga,
Não se agarra o fogo, que forte, crema,
Não se entende o que não se interroga.

Amar é sentir só o que não se vindima,
Sentir a beleza, o rio do sentimento,
É gratidão por quem tanto nos estima,
É ser feroz e amar sem pensamento.

E no fim das coisas, a eternidade,
Quando para atrás se olha perto da Morte,
E contemplar com plena liberdade,
Esperando a majestade com peito forte.

E no sono expirar com um sorriso,
Estar pronto em paz, tranquilo e dele contente,
Ser feito, não por ninguém, nosso juízo,
Conhecendo o mistério e... eternamente.

Mas não agora, ainda não: é cedo,
Enquanto houver em nós vontade imensa,
Que vença aquele que invade, o medo,
Vencido, o medo torna a chama intensa.

Como ver o mar, e nele mergulhar,
Como só estar, correr, amar... sentir
E mesmo no trilho podendo arrepiar,
Qual medo que nos invade, e não fugir.

Ó Terra que simples gera em ironia,
Ó Céu, dono das nuvens, de todas as luzes,
Deixa que o Sol incida na poesia,
Para eu cantar o que tu reproduzes.

Esboçava ele sorriso, porém, fingindo,
Por entre a gente onde se agasalhava,
Evitava à gente falar, mentindo,
Que na sua amada ainda pensava.

Até que viu Sofia por ali andar,
Sem procurar um Amor, naturalmente,
Vazio, sem outra paixão nele, desejar,
Assim caiu no amor, novamente.

Todas as vozes deixaram de soar,
À volta dele, pois todas ela cessava,
Não era sua vontade a comandar,
Nem de alguém...o Amor era quem mandava

O falso em si se tornou verdadeiro,
A luz tornou a penetrar no escuro,
Não deu a luz vontade ser aventureiro,
Era diferente; era um Amor maduro.

Razão voltou a vencer a Loucura,
Gémeas humanas; porém tão diferentes:
Quando uma é doença, a outra é cura.
Que nisto me oiçam, ó corações ardentes!

Escolheu ouvir a voz do coração,
Que só a coragem insufla par’ o fazer,
E o Bem e o Mal deixam de ser questão,
Ó William, tinhas razão: “Ser ou não ser...”

E escreveu carta, à antiga, manuscrita,
Chegando a ela por um vento humano,
Dizendo como era bela, tão bonita
Deixando o ser, por ela, ser leviano.

Jurava que o sentimento era espontâneo,
Que ao passar do tempo, pensava nela,
Não era aquele instante momentâneo,
Disse: «És de todas as flores, a mais bela.»

Coraram-lhe as faces, tímida, e dizia:
«Oh, eu não sou nada disso, não mo digas»
«De todas as flores...», assim repetia
«Talvez acreditar em mim consigas.»

E do tempo olvidos, conta não deram,
Que o sol no horizonte já se escondia,
Houve o momento que os dois se renderam,
Quando no olhar pureza. Poesia!

São nos olhos que falam da mentira,
Por mais quem dela prime, assim não pense
Que assim é quando se entranha e nos tira,
Mais um bocado da alma, e o Diabo vence.

Viu que dele mentira, não saia,
Honrada com persistência e altivez,
Como há tanto tempo já não se via,
Eram pétalas que caiam aos seu pés.

Como travar o género de diálogo,
Que nos parece ser para a vida toda,
Com a pessoa que nunca é um monólogo,
E a vista não turva; nem a pressa tolda?

Mas eis que a voz do passado amarga,
Como a forma que a tempestade tem,
Ameaça o negrume; sobre nós, descarga,
Toda a ira atroz da Natura Mãe.

Choveram as frases nele mais horrendas,
Se de um lado negro, no outro, escuro
Das duas faces do amor eram oferendas.
Pensar na felicidade era prematuro.

Pensava um chão mais firme o que pisava,
Que beberia da fonte vida, sossego,
Julgava que o passado não se levantava,
Da tumba para lhe dar mais desassossego.

Como o Homem julga deter mão forte,
Sobre as coisas do mundo e do Amor,
Quando se pensa ter a Fortuna ou Sorte,
Sai do Inferno a besta que causa dor.

E as chamas se alastram pelas florestas,
Floridas por nós, com o amor erguidas,
Sem que as folhas viçosas fiquem mestras
Sem ver o branco salpico das margaridas.

Assim a paz se perde quando incautos,
Pela jornada agreste e rigorosa,
Julgamos ser supremos, ou deuses faustos
E assim se perde a paz harmoniosa.

O nosso mundo, à volta, se desmorona.
Não existe água que extinga fogo ardente,
Da humanidade, a Natureza é dona:
Porque não se implanta isto logo na mente?

Mas aceitemos nas coisas a realidade
Que é fardo do homem, ter as desavenças,
Sem dar conta que evolui da verdade,
De haver no romance outras eminências.

Um dia é belo porque o Sol se mostra,
Em todo o seu esplendor, e alegria,
Mas sol em demasia queima a encosta,
Das sensações mundanas: e mais diria,

Que a luz brilha intensa na escuridão,
E como gota derramada, se espalha,
Que engole o negrume do coração,
Com inefável poder, no breu, trabalha.

Gostar é o princípio que gera e cria,
É da vida a centelha que se detém,
Que pelo constante sopro, o belo procria,
Nosso rebento e dele se é Pai e Mãe.

Amar inspira; mistério que permanece,
O que nos move, sustém e nos conserva,
Sem nada pedir, pois a vida oferece,
Tudo o que faz crescer como a erva.

E aparada em constância, deleita
A vista, como cuidar duma criança,
Que na tenra idade nela se deita,
E nela está sempre a voz da esperança.

Assim gera um Amor mais que imperfeito,
Se for como um rio calmo que corre,
Por mais se pense que será perfeito,
Nunca será. E assim nunca ele morre...

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