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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

Único Canto

I

Vou voar bem longe sobre o vazio,
Talvez encontre um poiso que aguente,
Deste vazio que nem é quente ou frio,
De alma sem gosto que nada sente,
Como a corrente dum estreito, brando rio,
Que corre sem pensar por não ter mente.
Escorrego em piso seco antes da chuva,
Toco em tudo e tudo em cinza torno,
Se eleva espessa fumaça, a vista turva,
Mesmo no quente Inferno o acho morno,
De Aquiles, saí do meu curso na curva,
Diz-me a esperança haver um contorno.
Voltarei do vinho ter o sabor,
Que irriga a seca a intriga do Amor?

II

Parece o meu olhar estar noutro lado,
Em quais lugares vistos só em sonhos,
Que engolem num instante o que é amado,
Fazem meus olhos brilharem risonhos.
Tenho uma gula que a alma devora,
Tenho a sede de gigantes terrenos,
Que caminharam em tempos de outrora,
Não sou nem mais do que eles, nem menos.
Colheram dos jardins as mesmas flores,
Beberam a água pura dos mesmos rios,
Tiveram o ócio ao Sol, os mesmos calores,
No Inverno nevando os mesmos frios.
Salto então de poiso para outro mundo,
Ou mesmo neste escavar ‘inda mais fundo?

III

Talvez eu me ache, encontre, me sinta,
Me escave ou esmague ou ressuscite
Encontre um gosto doce que requinta,
Ah, quem a alma canta, alto a recite.
Não pendo pratos da negra balança,
Quantas verdades os loucos não vêem,
Ainda eu quero algo como criança,
Queiram, quem neles próprios crêem.
Porque tanto mastigo agora o ser,
E acabrunhado ao vento ainda estou,
Porque amo quem eu hoje não estou a ver,
Como se alma o Diabo me levou?
Quem bebe sôfrego o vinho do Amor,
Ébrio à noite e de manhã a dor.

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