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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Um forasteiro

Fevereiro 24, 2006

Quando nos ferra o ódio as suas garras,
E atordoados num chão em dor nos deixa,
Deixemos que um Amor solte as amarras,
E alma tão preciosa, já não se queixa.
Como mero humano nu não inanimado,
Voltei o olhar à costa abandonado,
Qual flor que ao sol os braços tenros não fecha.

Na costa verde, famélica alma d' águia,
Poisei num florido e ramo seguro,
Cambaleei, sem ter estrela seguia,
Sem que sentisse de mim ser inseguro.
Voltei debaixo, qual Phoenix renascida,
Dos escombros, das cinzas, quand' Bela Adormecida,
A ver se o nevoeiro denso perfuro.

Com nada me importei ou desejava,
(Quem deseja detendo o vasto mundo?)
Quanto mais perecia, mais eu amava,
Mergulhei num sono terno, assaz profundo.
E copiosa chuva de estrelas eu vi,
Gelado o corpo meu nada senti,
Num 'plim', vi minha vida em um segundo.

E tresmalhado do rebanho andei,
Sem que sentisse ser cordeiro ob'diente,
Outras verdes pastagens, livre, pastei,
Como um cavalo correndo livremente,
Qual ser que a cerca salta, e adiante,
Se torna o tempo atroz pr'a trás, distante,
Ao certo Destino fugi desob’diente.

Mas fiz que o lago das Lamentações,
Com lágrimas vertidas de solidão,
Chorei uma a uma as tentações,
Da Liberdade que tolhe o coração.
Sem fórmulas vendidas por Alquimistas,
Ouvi os sofrimentos tantos de artistas,
De em vida não terem tido resolução.

Pensei o quanto existia equilíbrio,
Nas coisas, sem que dele me esforçasse,
Senti perder vontade, gosto ou brio,
Em empresa alguma que eu me entregasse.
Porém, nada surgia de novo em mente,
Porquê então seguir sempre, sempre em frente?
Talvez o incerto, o oculto me osculasse.

Como cristais quebrados num lajedo,
Tive meu mundo feito em mil fragmentos
Como em crianças demónios, os meus medos
Entraram em sonhos, em pensamentos.
Flor frágil, guardada por sonhos de rios,
Globo Azul reinado por homens gentios,
Quem em si semeia e colhe sentimentos.

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