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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Meu Apetite

Março 01, 2006

Não posso, Musa, deter qualquer um,
Ao caminhar se apanhe uma moeda,
Um arrojado querer? Não tenho algum,
Esmoreço ao ver-te assim, ao ver-te em queda,
Porque entristeço mais ver-te esperar,
E desespero o meu ter que encontrar.

E se algum dia eu for ao rio lançado,
Mórbido, o da Barca O cobrador?
Que farás do teu quando eu deixado,
No rio entre os dois mundos duma Além Dor?
Proíbo-te que estugues teu próprio passo,
Esperares, do Outro Lado, um melhor abraço.

Não te falo em sepulcral sentido,
Pelo contrário; libero-te, vida prendada,
Que farás tu confessa, quando eu morrido,
Estiver? Virás, não venhas minha adorada.
E não saber eu disto é um embaraço,
Faz-me esporar a alma que embique o passo.

Ó meu casto lírio, na alma alvura,
Expressas tão bem em teu rosto a Liberdade,
Que o mundo inveja, ignora, e admira,
Cobiça; e eis ingente fonte de maldade,
Porque me serves numa travessa de prata,
Que ata ‘inda no querer mais, do que desata?

Sinto que quanto mais ímpeto cresce,
Dele, que é o meu e nunca de alguém),
Asas lhe puser, tua frieza recresce,
Mesmo sabendo que não o louvo a ninguém.
Fazes-me sentir duma alcateia o lobo,
Que à fome desmiolada nunca pôs cobro.

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