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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

MCIII

Março 17, 2006

I

Passeia só por entre a multidão berrante,
O seu olhar é esguio da vil intriga e fome,
Passeia sem sonhos, destino, sem nome
Porque não há voz que anime ou cante.
Se enruga o rosto em maravilha estando,
Dos mares à frente que se deparam,
Pensando nos que nunca navegaram,
Passeia, e nisto, sorri e vai andando.
Diz-me, qual a tua glória, vou escutando
Deixei que a minha própria escurecesse,
Tentei falhando; e mais, falhei tentando,
Sem que a alma ao corpo desobedecesse,
E minhas falhas foram-me iluminando,
Como luz jorrada própria, repreendesse.


II

Não fui tratar das feridas no momento,
Não fui esfregar o chão da minha alma,
Deixei-me andar tão sujo no sofrimento,
Perdi a paz, o amor, a vida, a calma.
Não fui ouvir quem eu devia ouvir,
Não fui escutar quem devia escutar,
Nem perto me cheguei para reflectir,
Perdi o tacto, o gosto sem desgostar.
Quem vejo neste deserto? Nem vivalma,
Com quem tenho eu agora para conversar.


III

Mesmo os versos têm um sabor doloroso,
A fardo, que mantém um calor humano,
Não fui na música o ser mais virtuoso,
Deixei ventos entrar, causando dano.
Será que algo de mim por lá ficou,
Ó fonte insegotável de não esquecer?
Porém, o gostar tanto me amargurou,
Que tenho prontas lágrimas a verter,
Debaixo de um quebranto que ainda estou,
Do globo, e em nada ainda me converter.






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