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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

O Outro Lado

Julho 13, 2006

A máquina da mente se me emperra,
Deslize à pena impresso num papel,
Um sentimento, um momento na Terra,
Sabe-me na boca a amargo fel.

Da águia que dos escombros renasceu,
Majestosa, o voo não detenho,
Talvez de mim a Musa se esqueceu,
Colocou-me no mar negro num lenho.

Que faço no meio do nada ouvindo igual,
O som rude e maquinal das feras?
Já não distingo entre o Bem e o Mal,
Porque, Musa, meu campo desesperas.

Sonho ainda os sonhos grandiosos,
Ainda leio a gente que declina,
Um querer maior de estros vigorosos,
Gritando ao Homem que a fronte reclina.

Dos olhos vou dardejando o vazio,
Sem fixar em flores o meu olhar,
Porque o sonho de olhar me impediu,
Neste seco langor que é amar.

Entre os raios de Apólo, convalescendo,
Entra um novo brilho como desponta,
A aurora; nas trevas vou entendendo
Que um livre ímpeto ficou de fora.

Que é vida senão as árvores e as flores,
Que é vida senão da criança um sorriso,
Com que se tratam as feridas e dores,
Se não fores um gracioso narciso.

Ó diálogos divinos e constantes,
Se eu findasse agora minha jornada,
Talvez seriam os versos penetrantes,
De amar serenamente a minha amada.

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