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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

QUERER SEM PODER

Outubro 16, 2012

Ando a bater à portas do sossego

Sou como um vendedor de enciclopédias

Que abres a porta, e logo te entedias

Já li o Livro do Desassossego;

 

Não me valeu de nada nesta vida

Vi belos amanheceres, dei por eles

Senti um frio arrepiar-me a pele

Como sentir que a vida se endivida.

 

Ao longe, vejo o Tejo a percorrer

O seu destino, cumpre-o banal

Um cinto azul que aperta Portugal

Que geme pelos cantos a tremer.

 

Não sou artista! Nunca o fui, mas tenho

Um fogo de artificio colorido

Que explode cor no coração dorido

Por meu país tratar-me como um estranho

 

Já não me animo muito! Há muito que ando

A bater de noite, às portas dum emprego

Mas quanto mais eu bato mais carrego

Na ferida do que vai mais aumentando.

 

Hei-de ganhar meu pão a escrever versos

Deixá-los às janelas das velhotas

Que resignadas,  abrem sempre as portas

Pra companhia, a homens tão perversos.

 

Eu sou a árvore ansiosa por plantar

Quero crescer, dar fruto, vida e flor

Ser sombra, abrigo a quem fizer amor

À minha frente, a vida a celebrar.

 

Digo a verdade sempre em entrevistas

Querem saber milénios em segundos

Escondo meus pensamentos moribundos

Que dariam boas crónicas em revistas.

 

O meu querer? Parar não ter querer

O meu pensar? Não querer mais pensar

Estou farto não poder sequer sonhar

Pois o meu querer é querer sem poder

 

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