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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Frases Tumulares

Junho 11, 2012

Há lobos vorazes no meu sangue…

Quando a noite cai da cúpula celeste

Descem das florestas obscuras dum poema

Agrupam-se e travam combates ferozes

Entre o meu querer e o meu ser.

 

Criança fugitiva, trémulo de rosto pálido,

Chegaste-me como uma lua perdida e adoentada
Suspensa no destino igual e geométrico;

Teus olhos brilhavam de tristeza

Nem teu rosto recebia luz, estiolado de medo

Sujo, vinho derramado e criminoso

Vertigem sentir o pavor das luzes invadir-te

Depois que brincaste fora da vida e de mim,

Dor repartida, pão guardado num pano

Água colhida das chuvas beijadas nas folhas

Enquanto nos aquecia esse fogo rebelde

De ter sonhos, vida e esperança vivaz.

Acolho-te, órfão que és, homem que foste

Protejo-te de mim próprio, perigo inocente

Raspo o fundo do tacho das sobras

De metáforas fundidas em sangue e dor.

 

Tu, testemunha do esforço de esquecer

Essa navalha furtuita de noite

Que se me revelara fria, afiada de beijos

Escondidos ao luar nas noites solitários

Corujas nocturnas de palavras e nervos

Cravados em mim como frases em túmulos.

 

Para onde irás se não sabes tomar conta de ti,

Se és provérbio alado, sibilante, matutino

Saído da boca sábio dum velho desprezado

Curvado, folha outonal?

Como serás depois do perdão,

Se um pé gigante te esmaga o rosto

Se o reflexo no lago não é o teu,

Ou se preferires, como andarás na terra

Cego de amor ou carente dele?

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