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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

Viagem de Comboio

Logo pela manhã na luz límpida e clara,

Sob o nítido azul do céu que inspira confiança

No vento de nortada solto da caverna

Que vejo a humana gente como quem não dança.

 

Imundos, os passeios, minam-se de fezes

Os muros esbatidos por uma cor branca

É um papel qualquer para escritos obscenos

Um dente que apodrece mas que não se arranca.

 

Lindos, são tão lindos, meus irmãos fraternos

Outrora foram belos, hoje são fantasmas

Este, enfezadito, aquele que coxeia,

E o rosto da mulher coberto de miasmas

 

Quando saio do meu lar, vou para a estação

Do comboio generoso que por ninguém espera

Um túnel atravessa, inesperado surge,

Desfigurado um homem que lembra a quimera.

 

Caminho, na surpresa, vejo alguém que poda

Esquálidas palmeiras, fogo-de-artifício

Dum verde explosivo no ar que se não sente

Pendendo velhos ramos como em sacrifício.

 

Parte deste mundo vive adormecido,

Lembro, neste instante os que dormem na cama

Aqueles que nos cansam com suas mentiras

Trocistas que nos fazem rastejar na lama.

 

Levo na mochila só o necessário,

Comida, um diário, um livro, uma caneta

Sinto-me Salomão perto do paraíso

Durante quarenta minutos sou poeta.

 

Já vem cheio o comboio que entra na estação,

Depois de ouvir-se a voz metálica no ar

(Imagino-a no dia em que gravou sua voz

Às vezes sou assim, ponho-me a imaginar)

 

Uns dormem, outros falam, outros nem por isso

Outros lêem livros e diários da república

Uns estão empregados, outros nem por isso

Outros ao relento dormem na via pública.

 

Gare do Oriente! Aqui já sai mais gente,

Sente-se o comboio aliviar-se mais

As portas, ao abrirem-se, deixam-me contente

Sonho melodias, escrevo madrigais.

 

Quem viverá naquelas casas em ruínas?

Quem dormirá naquele tecto a desabar

As buganvílias púrpuras cor de crepúsculo

Não se esqueçam do cão preso sempre a ladrar.

 

Às vezes fecho os olhos, só para sentir,

O tipo de conforto que a noite nos dá

Por onde os meus fantasmas cheios de pensamentos

Na minha mente cantam do lado de lá.

 

Decifro, às escondidas, rostos curiosos

Uns, nada me dizem; porém, outros me inspiram

Um perigo gelado como a faca afiada

Que numa vida inteira amor nunca sentiram.

 

Por fim, o meu destino, eis o fim da linha

Diluído espreguiçar em sono e sonolência

Que mão nos moverá para o espaço invisível

Quando a Morte vier nos ler sua sentença?

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