Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

A Cidade

Tudo me delicia pra manter-me vivo,

Anónimo, soturno, bebo mil imagens,

Como um licor ardente, torna-me cativo,

Engulo avidamente rostos e paisagens

 

Será mais tarde um filme visto mentalmente,

As coisas têm o lacre agudo da saudade,

Não sei porquê costumo gravar geralmente

Máximas que gritem Amor e liberdade.

 

Na frescura das manhãs, do alto monte vê-se

As povoações cobertas de neblina branca

Parece que vivemos nas nuvens; parece

Flutuantes sonhos que a vida nos arranca.

 

A rapariga fuma à porta de uma loja,

Para matar o tempo acaba por matar-se,

Minuto a minuto, a sua boca enoja

A arrogância no olhar denuncia adorar-se

 

A idosa mal vestida, imunda, esfarrapada,

Emana um cheiro infecto, odor da podridão

Altiva, uma mulher passeia abençoada

Pela beleza só; pela Virtude, não.

 

A jovem rapariga no comboio à tarde

Espalha uma fragrância doce por encanto,

Homens, cheirando a vinho, sem fazer alarde

Apalpam-na com fogo nos olhos, a um canto.

 

Complexos de alumínio e vidro me parecem

Meu dédalo mental de música e de versos,

Beijam-se dois homens – que ternura – esquecem

Os olho que rotulam de doentes e perversos.

 

Estão certos. Este beijo é o século vinte e um.

Prefiro flores, música, Arte e Poesia

Não me formei doutor, não tive jeito algum

Mas falo ao mendigo com igual simpatia.

 

Ouvem-se sirenes, a canção do pânico,

Sinfónica, a cidade tem espasmos de inferno

Intrusos, entram sons metálicos, mecânicos

Matando o que de mim é calmo, puro e terno.

 

Como painéis ruidosos digitais, complexos,

Secam com avidez as tetas da mãe-terra

Chegam-me aos ouvidos sonhos desconexos

A vida é uma flor na lama que se enterra.

 

Viver é estar na fila à espera impaciente

sinto um tigre no estômago a rugir de fome

Morde os glúteos firmes de quem está à frente

É uma senhora fina que lhe ignoro o nome.

 

Deixo-me embalar no vento repentino,

Levo a mão aos versos dentro da algibeira,

Corro a enganar as ânsias do destino

como as águas da chuva inundam a ribeira.

 

Nos dias em que o céu é azul, imaculado

Guarda o rebanho plúmbeo de nuvens cativo

Dos rastros de fumo dos aviões, riscado

O céu é um tabuleiro de xadrez festivo.

 

A calvície dos choupos, plátanos que soltam

Folhas outonais, varridas pelo vento,

Meus olhos consumidos pelo Outono escoltam

Imagens sepulcrais que inspiram desalento.

 

Sobe a melancolia! A canção do crepúsculo,

Canta-se nas ruas cânticos de pressa

Rugem autocarros, carros, sou minúsculo

Pudesse ser árvore que vive sem pressa.

 

Ouve-se um comboio; passa como a cobra

No milheiral de rostos, braços e cabelos

O dia mais um pouco de sono nos cobra

Desenrolando à noite cansaço aos novelos.

 

Olho, entre a folhagem, vagamente, espreito

Das árvores esguias, o sol infantil

Brincando de arco e flecha, acerta-me no peito

Para lembrar-me o quanto sou frágil, inútil.

 

Fere-me os ouvidos a canção do pobre,

Morde-me o metal batido, martelado

Mata-me a ganância dum rico que encobre

A luxúria em que vive de putas rodeado.

 

Cordões policiais, armados de bastões

E escudos, como em tempos temíveis espartanos,

Do outro lado tigres, lobos e leões

Com ódio, paus e pedras aliviam danos.

 

E quando a noite cai, e quando a Lua sobe,

Ao vê-la retocar a sua maquilhagem,

Aplaudo o strip-tease quando atira o robe

Pra longe, e de luar, ilumina a paisagem.

 

Antiga como o Tempo, um relógio celeste

Nocturno, como triste cuco abafa a dor,

Caminha, majestosa, em direcção a Oeste,

Como se lá estivesse à espera o seu amor.

 

Acendem-se luzes sombrias nos subúrbios

De cor alaranjada, lúrida e fatal,

Como se ardesse um lume; ouvem-se distúrbios

Ao longe, me parece que lá dorme o Mal.

 

Curvo-me perante a dádiva da vida,

Finco as mãos nas curvas ancas deste mundo,

Até que a minha alma flutue perdida,

Até que solte o último suspiro profundo.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D