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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Cai a Noite em Mim

Sou como aquele ansioso peregrino

Que nunca viu o mar e ao mar chegou

Contemplo-o, vejo a linha do destino,

Que o mar, com alva espuma  me apagou.

 

É como a areia quando está molhada,

O sol sedento suga água do céu,

Seca igualmente e assim, a ser sugada

Sinto a alma que ainda não morreu.

 

Estendo as mãos, retenho o sol que bate

No abafado dia sem dar tréguas,

Minha tristeza arranco co’ alicate,

Traço a linha do destino sem réguas.

 

Tentando erguer cidades com meus versos,

Como Alexandre a antiga Alexandria

Sem sangue derramado, tão dispersos,

Fundei o meu império de Poesia.

 

No meio da escuridão quando as estrelas,

Se fixam no alto céu escuro no Verão,

Noto que brilham mais e são mais belos,

Se as vejo com os olhos do coração.

 

Sopra uma brisa no ar quente, abafado,

Dormem milhões de almas no meu país,

Tento abafar o meu grito calado,

Sobe-me um arrepio por estar feliz.

 

Momento raro quando livre o digo,

Quem nunca sentiu medo por sentir-se,

Feliz, no lar, conforto, bom abrigo,

Trocista o infortúnio vem a rir-se.

 

Soltam suspiros mudos as palmeiras

Vão acenando às flores que lhes sobram

Estarem por perto as sábias oliveiras,

Que juntas crescem mas rendas não cobram.

 

Lá vem à mesma hora o pobre homem,

Coxeia, há anos, falta-lhe o vigor

Da verde juventude, anos consomem

O ânimo de viver com furor.

 

Não sei qual o seu nome. O meu, ignora,

Olhamo-nos apenas num momento,

Viúvo, o rosto pela mulher chora

Eu porque hoje só choro em pensamento.

 

Costumo ouvir o canto das cigarras,

Encontram-se espalhadas na verdura,

Soltam ao canto as inúteis amarras,

Canção igual do estio na noite escura.

 

E um fingimento ameno de poeta,

Embalado na sombra do que sente

Não há mais nada, a noite me decreta

Deitar-me no vazio inconsequente.

 

Fecho a janela, fecha-se o universo

Tranco todas as portas da minha alma,

Deixo-me entregue ao sono deste verso

Enrubescendo as faces nesta calma.

 

Uns prendem-se em romances virtuais,

Desgastam-se em mensagens sucessivas

Prometem serem fiéis a mil e tais

Amantes, em teias de almas cativas.

 

Caprichos de ouro e sangue, carne e osso

Dão cor à liberdade à fantasia,

Como se me apertassem o pescoço

sinto o rumor do caos e da harmonia,

 

Como um gigante erguendo cem tentáculos,

Monstro marinho amaldiçoando a terra,

O céu enche-se de cinzentos obstáculos,

Que nascem por detrás da íngreme serra

 

como se houvesse um monstro erguido à frente,

No espaço indivisível nos sondando

Tento a vontade por repasto, a mente,

Como falsa pessoa no tentando.

 

A vida é mais que ver por dentro, há fora,

Vida nos envolvendo com mil braços,

Lançado ao lixo o tempo não demora,

Nem nunca ouvi dizer que abranda os passos.

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