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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

As Contradições do Amor

Junho 08, 2010

O teu amor não foi entregue em vão

Nunca é em vão o nosso amor entregue,

Por mais que o teu coração te negue,

Pergunta-lhe se era amor ou paixão,

Também sobre a razão e a loucura,

Se é uma loucura a vida, então o amor,

Mascara-se de mal que nos dá dor,

Sem converter-nos a dor em ternura.

 

Longe de ti a culpa pertencer-te,

Se a culpa é um laço atado às mãos dos dois

Quebra-se a aliança, quebra-se depois

Desejo de viver a envolver-te,

Pois que esse amor fogoso, então se é fogo,

Devora-nos a íntima floresta,

Desfeita em cinzas, o que de ti resta,

Será que é fogo o amor que arde? Interrogo.

 

Frágeis, somos frágeis, assim vejo,

Quando tentamos ver do amor desígnios,

Se dele tenho ouvido mil declínios,

Parece-me mais fruto do desejo,

Pois quem ama não tenta defini-lo,

Quem ama, sofre e sabe o que é sofrer,

É muito mais do que esse bem querer,

Que a gente sofre para consegui-lo.

 

Mas parece-me justo e legítimo

Primeiro conhecer-se a pessoa errada,

Até que venha aquela bem amada,

que nos toca ao de leve o nosso íntimo,

Que absorve o amor como se fosse água,

E nos devolve em água ainda mais pura,

Que nos conforta, que nos dá ternura

Drenando da nossa alma angústia e mágoa.

 

Se já não crês que amada venhas ser,

Serás, pois te roubaram a esperança

Crê que virá alguém de confiança,

Dar-te o que te negaram, sem querer,

Cega-nos esse amor confuso e falso

Com falsas vibrações de uma paixão,

Estrela que nos guia à ilusão,

Levando-nos mais tarde ao cadafalso,

 

Pois que no amor o bem mal nos parece,

E o mal parece bem sem que bem seja,

Não podemos amar quem não deseja,

O mesmo bem que nosso amor oferece,

Perdoa aquele que não soube amar-te,

Mesmo que viva no arrependimento

Que no presente vem dar-te tormento,

O que não soube no passado dar-te.

 

Teu coração estará em alerta máxima,

Ao sopro melhor que há nesta vida,

Verás que ficarás como vencida,

Por quem querer-te vai dele estar próxima,

Ter o prazer da tua companhia,

Ver-te com meigo olhar sem os ferozes,

Olhos de lobos que são atrozes

Que muitos primam mais por ousadia.

 

Aquele que te amar fará sorrir-te,

Não pode ser quem te provoca o choro,

Quem vem grotesco encher-te de indecoro,

Que nunca quis amar-te nem ouvir-te

Há dessas almas que andam tão confusas,

Vacilam muito no querer amar,

Desconhecendo o nobre acto de dar

Nascidos num berço cheio de recusas.

 

Podia sobre o amor em vão perder-me

Pois sinto o amor em mim sentir é tudo,

Mais que explicá-lo, ou ser alvo de estudo

É sentir lentamente converter-me,

Amor é ver crescer flores à volta,

É dar por este altíssimo mistério,

Sentir que já foi reino, agora império

Sem que ódio sintas, culpa, dor, revolta

 

Amor não é um fogo que devora,

A nossa alma que é uma verde floresta,

Não pode ser fedor que tudo empeste

Tem que ser um bem que nos revigora,

Que nos reanima e nos devolve o gosto

Alegre de voltarmos a viver,

tem que ser bem benigno, tem que ser,

Nunca um maligno mal que dá desgosto.

 

Amor é um sopro vivo que se sente,

Na alma, um florescer, verde florir

Um rebentar em cor, um explodir,

De vida envolta, bela e sorridente

Que derruba altos muros, ergue pontes

Erguida pelo saudável diálogo,

Não pode em duas almas ser um monólogo

Como o vento falando aos verdes montes.

 

Lembrando que nos fere o agudo espinho,

Nas horas mais difíceis de inconstância,

Provando amor se é puro na constância,

No conforto do lar que é nosso ninho,

Que às vezes soa a uma contradição

Que não se entende, nem se acha sentido,

Anda-se cá na terra tão perdido,

Por ser complexo o humano coração.

 

Mas tudo vence, reina triunfante

Sobre os contraditórios sentimentos,

Que nos baralha tanto os pensamentos

Mas nos devolve à luz clara e brilhante,

Não vale a pena procurá-lo se ele,

Esconde-se ao sentir-se perseguido,

É um sentimento que vive perdido

O único com brandura ódio repele.

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