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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

Amoreira

Quando seco, embrutecido, ocioso, rígido

prefiro espreitar da gruta e andar à chuva,

Sossegar no refúgio, longe do meu cérebro,

Do corpo que pede, da alma que explode,

No verso preso no estendal da alma onde fico,

Tantas, tantas vezes, inerte, híbrido, gasto

Preso, à liberdade das mulheres casadas

Louco, à ingenuidade humilde de poeta,

Depois, se o sol lá fora aclara a terra,

A minha alma voa, pássaro fugido da gaiola

Preso evadido, procurado pelas autoridades,

E uma fome carnívora de ser fruto ou flor,

Dos verdes limoeiros, das frescas laranjeiras,

Sorver e guardar espalhados aromas campestres

Zumbir com as abelhas, ser inútil, ser insecto,

Onde sossego. Ah se me deixasse ser tudo,

Menos ser gente, amorfa, descartável, olvidável,

Subindo as ondulantes verdes serras sedutoras,

Salpicadas de sombras frescas que convidam,

Amantes a esquecerem o mundo e as coisas,

A pôr o amor em dia, beijados pelas nuvens,

Encharcados de carícias molhadas e lentas,

Ansiosas, e apressadas, e agressivas,

confundidos na exuberante flora colorida

Bordando bravos campos que amiúde

Persegue-me a loucura absurda de parar,

Para contá-las, uma a uma, e sorvê-las

E levá-las para esta colmeia chamada alma

Esvaindo-me em mel de verso espesso,

Útil, inútil, que importa, seria eu, comigo

E contigo, ó milagre único da vida, Mãe Natura.

Há na linha do horizonte estranhas seduções

Lindíssimas mulheres, olhos perversos,

Jardins do deleite, onde entramos, e saímos

Esgotados; há nos montes, poemas diversos,

Espalhados dispersos, esparsos, submersos

Deslizes suavíssimos de aparas de ouro

Frutos silvestre à espera de serem colhidos,

E a gente, de ásperas, rudes e mágicas mãos

Entrelaçam, humildes, fios do meu destino.

Até os ventos me trazem, benévolos

Como se na noite anterior fossem amados,

Pessoalmente pela esbelta Vénus em pessoa,

Trazem-me o aveludado e adocicado aroma,

Da flor de laranjeira, cinco pontas, cinco dedos,

Cinco estados de espírito diferentes,

Que cedo, falível, como gente pobre e honesta

Caiem no solo poeirento, duro e seco

À espera de viajarem no barco do vento,

E morderem o dorso azul do mar instável

Como mordo, abraço e beijo esta paisagem

Erótica, romântica, bela e sensual,

Que todo o ser que olha renasce sempre que a vê,

Ó dias que me dizes: “tira o casaco,

Deita fora esses papéis onde te escreves

E reescreves, sem te encontrares: vem amar-me

Corre pelos prados verdes virgens, viçosos,

Obscuros caminhos que desaguam no rio,

A ouvir a melodia líquida, reconfortante

Húmida, humilhante, homem, homem apenas

Fingindo que por ali encontro a toca de leões

Leoas, tigres, hienas, velozes chitas,

Ou ninhos de milhafres, águias, gaviões,

Tordos, cotovias, pardais, andorinhas,

Coros de elefantes, búfalos e zebras,

Fazendo quartas vozes, graves, contrabaixos,

e violinos de aves, e violas de árvores,

e de ramos e folhas de ulmeiros, oliveiras,

choupos, faias, tílias e salgueiros,

Que tingem o rio com lágrimas verdes

Com prantos chorosos, com doces queixumes

E comovidas as flores perfuram a terra

Meneando corolas e hastes dum lado para o outro

Dum lado para o outro, dum lado para o outro,

Enquanto a erva ondulante de Van Gogh

Respira a pureza do ar que alegre vem

Viajando em tapetes invisíveis de vento

Empurrando-me para a frente, fora da hesitação,

Que existe dentro de mim em amar tudo isto

Em ti, amor de amoras, morangos, framboesas,

De fontes místicas e ditados naturais,

Vigiados por nuvens de dia, estrelas de noite

Onde parece que na escuridão há um Pã sentado,

Quando seco, embrutecido, ocioso, rígido

prefiro espreitar da gruta e andar à chuva,

Sossegar no refúgio, longe do meu cérebro,

Do corpo que pede, da alma que explode,

No verso preso no estendal da alma onde fico,

Tantas, tantas vezes, inerte, exausto gasto

Preso, à liberdade das mulheres casadas

Louco, à humildade ingénua de poeta,

E depois, se o sol lá fora aclara a terra,

A minha alma voa, pássaro fugido da gaiola

Preso evadido, procurado pelas autoridades,

E uma fome carnívora de ser fruto ou flor,

Dos verdes limoeiros, das frescas laranjeiras,

Sorver e guardar espalhados aromas campestres

Zumbir com as abelhas, ser inútil, ser insecto,

Onde sossego. Ah se me deixasse ser tudo,

Menos ser gente, amorfa, descartável, olvidável,

Subindo as ondulantes verdes serras sedutoras,

Salpicadas de sombras frescas que convidam,

Amantes a esquecerem o mundo e as coisas,

A por o amor em dia, beijados pelas nuvens,

Encharcados de carícias molhadas e lentas,

Ansiosas, e apressadas, e agressivas,

confundidos com a exuberante flora colorida

Bordando os bravos campos que amiúde

Toma-me uma loucura absurda de parar,

Para contá-las, uma a uma, e sorvê-las

E levá-las para esta colmeia chamada alma

E esvair-me em mel de verso espesso,

Útil, inútil, que importa, seria eu, comigo

E contigo, ó milagre único da vida, Mãe Natura.

Há na linha do horizonte estranhas seduções

Lindíssimas mulheres, olhos perversos,

Jardins de deleite, onde entramos, e saímos

Esgotados; há nos montes, poemas diversos,

Espalhados dispersos, esparsos, submersos

Deslizes suavíssimos de aparas de ouro

Frutos silvestre à espera de serem colhidos,

E a gente, de ásperas, rudes e mágicas mãos

Entrelaçam, humildes, fios do meu destino.

Até os ventos me trazem, benévolos

Como se na noite anterior fossem amados,

Pessoalmente pela esbelta Vénus em pessoa,

Trazem-me o aveludado e adocicado aroma,

Da flor de laranjeira, cinco pontas, cinco dedos,

Cinco estados de espírito diferentes,

Que tão cedo, como gente falível e honesta

Caiem no solo poeirento, duro e seco

À espera de viajarem no barco do vento,

E morderem o dorso azul do mar instável

Como mordo, abraço e beijo esta paisagem

Erótica, romântica, bela e sensual,

Que todo o ser que olha renasce sempre que a vê,

Ó dias que me dizes: “tira o casaco,

E deita fora esses papéis onde te escreves,

E reescreves, sem te achares, e vem amar-me,

Correndo por prados verdes virgens, viçosos,

Obscuros caminhos que nos levam ao rio,

A ouvir a melodia líquida, reconfortante

Húmida, humilhante, homem, homem apenas

Fingindo que por ali encontro a toca de leões

Tigres e leoas, hienas, velozes chitas,

Ou ninhos de milhafres, águias, gaviões,

Tordos, cotovias, pardais, andorinhas,

Coros de elefantes, búfalos e zebras,

Fazendo quartas vozes, graves, contrabaixos,

e violinos de aves, e violas de árvores,

e de ramos e folhas de ulmeiros, oliveiras,

choupos, faias, tílias e salgueiros,

Que tingem o rio com lágrimas verdes

Com prantos chorosos, com doces queixumes

E comovidas as flores perfuram a terra

Meneando corolas e hastes dum lado para o outro

Dum lado para o outro, dum lado para o outro,

Enquanto a erva ondulante de Van Gogh

Respira a pureza do ar que alegre vem

Viajando em tapetes invisíveis de vento

Empurrando-me para a frente, fora da hesitação,

Que existe dentro de mim em amar tudo isto

Em ti, amor de amoras, morangos, framboesas,

De fontes místicas e ditados naturais,

Vigiados por nuvens de dia, estrelas de noite

Onde parece que na escuridão há um Pã sentado,

Tocando músicas na flauta para tocar de dia

Num estúdio feito de sombras, de muros musgosos

De tédio, de jogos nocturnos da Lua,

Que à noite dá repouso ao arco e ensina,

A repousar num céu suspenso de luz e prata,

O uivo do lobo neste lugar é uma lenda

Um rumor, praga espalhada pela gente,

Passando de boca em boca distorcida e falsa

Uma verdade convertida na mentira,

Eu sou esse lobo que vem uivar em verso,

Do jeito igual ao tojo, igual ao brejo,

Embrenhando-me na mais fina flor de gente,

Que sabe perfeitamente onde o vento nasce,

E nunca leram livros, nem Virgílios, nem Homeros

Lêem as escrituras do céu nuvens e terra

E são, à sua característica maneira,

Mais poetas que algum dia poderei vir a ser.

Ensaiando na sua flauta para tocar de dia

Num estúdio feito de sombras, de muros musgosos

De tédio, de jogos nocturnos da Lua,

Que à noite dá repouso ao arco e ensina,

A repousar num céu suspenso de luz e prata,

O uivo do lobo neste lugar é uma lenda

Um rumor, praga espalhada pela gente,

Passando de boca em boca distorcida e falsa

Uma verdade convertida na mentira,

Eu sou esse lobo que vem uivar em verso,

Do jeito igual ao tojo, igual ao brejo,

Embrenhando-me na mais fina flor de gente,

Que sabe perfeitamente onde o vento nasce,

E nunca leram livros, nem Virgílios, nem Homeros

Lêem as escrituras do céu nuvens e terra

E são, à sua característica maneira,

Mais poetas que algum dia poderei vir a ser.

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