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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poema sobre a Infância

Abril 14, 2010

Mais velho, mais maduro, mais caduco

Consciente da brevidade da vida,

Uns julgam-me engraçado, outros maluco

No lar da aranha vil tão bem tecida,

Torna-te águia poema, voando em busca

Da rutilante luz que orienta e ofusca.

 

Vai ter co’ a alegre infância tão presente

Raízes fortes furam terra e alma,

Enquanto é claro o dia florescente,

Lembrar-me do passado que me acalma,

Pudesse eu vê-la igual a um filme ver-me

Menino ainda a moldar-me e cedo erguer-me.

 

Sabe a lençóis de linho perfumados,

Da alvura das pálidas manhãs

Ao beijo dos pais abençoados,

Que nos dissipam da alma coisas vãs,

A pura nitidez, luz cristalina,

Que a infância ainda me alegra e me fascina.

 

Os ramos das árvores que amparavam

A corda resistente do baloiço

De papelão o assento, os que empurravam

Riam-se tanto - os risos, ainda os oiço,

À noite quando a noite vem chamar-me,

A insónia, e o sono doce vem roubar-me.

 

E o giz no alcatrão delimitava,

O jogo apenas, não as nossas vidas,

Meu peito por um nome suspirava

Durante um qualquer jogo, às escondidas

A ânsia por perder-me de encontrá-la

O aperto de querer tanto beijá-la.

 

Nos prados verdes ululavam flores,

Na orquestra dirigida pelo vento

Como um tapete persa mil amores,

Floriam, como a cor do pensamento

As flores amarelas e vermelhas,

Malmequeres que ditavam centelhas.

 

Lembro-me o azul do céu macio etéreo,

esquecendo-me que o céu me lembraria,

Já nessa altura aluado e muito aéreo,

Eu era, pois poemas já escrevia

Com raios do sol quente no meu rosto

Bem cedo construíra íntimo gosto.

 

e a ânsia de escrever nos folhas novas,

Dos livros escolares, nos cadernos,

Lápis de cor, pinturas, não há provas

Disto ocultas quais corruptos governos,

Mas tu, Mãe da Memória generosa

Deste-me o dom de amar pra sempre a rosa.

 

No louco chapinhar nas poças de água,

Com botas de borracha bem calçadas

No Inverno frio, sem que tivesse mágoa

De ter as roupas sujas, salpicadas,

De lama, água, de inconsciência e agora,

Foi-se esta liberdade, foi-se embora.

 

é por caminhos de terra entre o verde

que quero percorrer para lembrar-me,

O nome, que uma vida inteira pede,

À noite quando o dia vem matar-me,

À tarde quando as sombras são elásticas

Na mente encontro imagens tão fantásticas.

 

Como estandarte da felicidade,

Símbolo antigo sem mistério algum,

como o marcado encontro co'a verdade

Dos rostos entre o meu não ver nenhum,

Ó som de Verão no canto das cigarras

Infância que me agarras e me amarras.

 

Os muros que serviam de oficina,

Aos nossos carrinhos de brincar,

Meus olhos procuravam a menina

Que um dia me lembrei de procurar,

Que por amor tão puro, ingénuo e belo

Durante a vida dura tentei vê-lo.

 

Poema, não vás longe, já te alongas

como meu pai na praia me advertia

Se vinham espumosas brancas ondas

E água do mar salgado engolia

Pois que és ensaio inútil neste estúdio,

Que poderás ser só breve prelúdio.

 

Do que contar-te quero, amiga. Há quanto,

Tempo não nos vemos, nos olhamos,

Há tanto, tanto tempo, cria espanto

Falar-te das coisas que nos lembramos,

Lembrar-te que lembranças são brinquedos

Que espantam males, afugentam medos.

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