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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Coragem

Março 31, 2010

Fraquejo na coragem de escrever,

De vir a ser ou não original,

Mas o que tem que ser, ai, tem que ser

E ao poema não se pode deixar mal

Cá fora fique mal, mas nunca em mim

No íntimo guardado, e genial

Rotule o céu, se o for, a Musa, enfim

Se for esse o objectivo principal.

 

De tanto ver sem ver, olhar o abismo,

Aquela rua ao fundo, nossa escolha,

Levado sem saber por romantismo

Tocado sem querer por quem nos olha,

Pergunto muitas vezes se bem vivo

Se neste seco Verão sou seca folha,

Prestes a desprender-se, conclusivo

que já não vivo, flor que se desfolha,

 

Jóia lançada a um mar inexistente,

Colar feito com pérolas sem mar,

Sombra ao luar, disforme, resistente,

À treva, que se roça devagar,

Por nosso corpo como álgido filho

Daquele que queria conquistar

O lar do seu Senhor, anjo sem brilho

Que mora num palácio a fervilhar,

 

Ó frágil coração que tanto aperto,

Sente-se quando sopra uma saudade,

Dos ventos da infância, já deserto,

Última vez que tive liberdade,

Última vez que tive a mão no seio

E lhe beijei a boca sem ter culpa,

Ultima vez que não senti receio

Nem à vida pedir, perdão, desculpa.

 

Ó mãos que já tocaram monumentos,

Dedos que mil tesouros encontraram

Boca que arrancara fraudulentos

Beijos de bocas que não mais beijaram,

Olhos gravadores deste mundo,

Máquinas fotográficas autênticas

Pés que caminharam nem meio mundo

Língua que soltara coisas excêntricas,

 

Será que dei bom uso ao que me deram,

Da voz antes alegre agora grave

Será que me amam os que amo e me esperam

E os que pedras me põem, engano, entrave

Será que muito tempo ainda me falta,

Acordo, no início deste sono,

Meu coração palpita e sobressalta

Batendo as asas, voando ao abandono.

 

Mas que tinteiro cheio de tinta preta,

Caíra em cima do meu pensamento?

Já minha esponja lava muita treta,

Do novo e actual conhecimento

De rosto mascarado, falso, oculto

Sabe-se mais, mais desconhecimento

Eu vi passar à minha frente um vulto,

Era o meu ser, há muito, ingénuo, inculto.

 

Falta-me hoje a coragem de escrever,

Como viajar num pássaro de fogo,

Com tanta coisa que há para escolher,

Escolhi escrever, o mar onde me afogo,

Raspo minha alma em recifes, corais,

Misturo-me nas ondas e na espuma

Embrulho-me nas loucas espirais,

Que esta vida me forma e me acostuma.

 

Ó brisa matinal, que não te agarro,

No verão que vivo, início do meu fim,

Ó vento que não levas este sarro,

No fundo do copo sujo em mim,

ó rio transbordante de águas límpidas

correndo dentro de cada um de nós,

Ó sol de limpo céu de coisas nítidas

Que o punho me segura e prende a voz.

 

Viver é despedir-me dia a dia,

Bebo a luz clara, dobro a sombra escura,

Que escurecendo vai esta poesia

Sentir saudade da sua alma pura

Venci muitos gigantes e castelos,

Matei dragões que me lançaram fogo

Da boca, tive sede de vencê-los

Como num filme actual, como num jogo.

 

Ser livre ao fim da tarde é recolher-me

Ao fim da angústia inerte ser sentado,

Neste momento seco, a converter-me

Num papel liso e branco amarrotado,

Rolando pelos campos cultivados,

De fogo, intenso, vivo, tão vermelho

Onde, depois das cinzas, são levados

Aqueles que se admiram muito ao espelho.

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