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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

A Estátua

Março 17, 2010

No meu purpúreo sangue espesso, milagroso

Fluente como um rio, por túneis incontáveis,

Um coro ancestral, ressoa cavernoso

Canções do infinito, a mim, incomparáveis.

 

Como o rumor da chuva, igual ao meu sentir,

Que líquidas canções flutuam nos telhados,

como ao sabor do vento, a Lua a aspergir

O seu lunar encanto, adorno aos namorados,

 

Como gemidos mudos vindos dos sombrios

Lares desconhecidos que a Natura encerra

De férrea persistência igual aos longos rios,

Que correm espontâneos no ventre da terra.

 

Dizem que os castelos vivem assombrados

Por espíritos malignos, de ávidos guerreiros

No ingénuo romantismo, verbos exagerados

Eu grito ao mundo inteiro serem verdadeiros.

 

Como sentir nas mãos a pele desta seara

De gente amontoada a ver um acidente

guardando um só lamento, o pranto que não pára

De quem o chão tingira de sangue fluente.

 

Como o mugir dos carros, fúnebres, velozes,

Felinos nas savanas de chumbo e cimento

Correndo como chitas ávidos, vorazes,

Igual ao meu rugir que há no meu pensamento.

 

Eu durmo a imaginar correr o sangue dentro

Do mármore esculpido de Pigmalião

Minha estátua esculpida e que lá bem no centro

Venha a pulsar vibrante inquieto coração.

 

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