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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

O Mundo da minha Janela

Fevereiro 11, 2010

A poça de água de óleo, à superfície

Lembra, quando a chuva cessa, o rosto

Do amigo que nos salva, da imundície,

Nos tira agudo espinho do desgosto.

 

Gotas de água, nos ramos das palmeiras,

Invocam a loucura dum pintor

Das cores que aproxima às verdadeiras,

Que à tela branca imprime alto rigor.

 

Se chove, o odor da terra traz-me a infância,

Quando era novo e na rua brincava

Saltava nuvens alvas, na ignorância,

Sorria e esse dia não contava

 

Passas por mim, mulher, deixas-me o rastro

Do perfume colorido, afrodisíaco,

Que eleva o sonho ser somente o astro,

Diamante no teu céu paradisíaco.

 

Criança que me olhas, lembrarei,

Que um dia alguém olhou pra mim, e tu

Serás alvo de alguém, do olhar; estarei

Lívido, insubstancial, na terra, nu.

 

E as coisas envolvem-me; têm bocas

Ditam-me versos, frases que vos deixo,

Ó sádicas mulheres, lindas, loucas

que vos descaia o vosso altivo queixo.

 

Decoro frases cultas nas paredes

Lembrando quem sonhara cá na terra

Beleza em livros belos, matam sedes

Fome, aos que a si declaram dura guerra.

 

A máquina do tempo corre aflita

Tem cores que comigo não condiz

E os anos são velozes como a chita

Que rasga a fulva selva tão feliz.

 

Pensar na morte cria grande incómodo,

Que mais fazer se pode além viver?

Sôfrego, bebo os dias, calmo e cómodo

No confortável lar que inspira ser.

 

Meus versos são os carros que dormitam

Diria serem cúmplices no crime

Ignoro se me seguem, se me imitam

Desejo que o poema me ame e mime

 

Num elegante cisne alvo montado

Nos ares, vento que poeira levanta

Porque desejo apenas ser lembrado

No perigoso mundo que me espanta.

 

Tantas maneiras tenho de viver,

Difícil é escolher melhor entre elas,

Como entre rosas, a rosa escolher

Jardim de variadas flores belas

 

Leio nas mãos as veias azuladas

Levando-as aos ouvidos para ouvir

Correr rios de sangue, águas sagradas

Que imprimam no papel o meu sentir.

 

Como na esgrima escolhe-se o florete,

Espada ou sabre, ao corpo se assemelha

A vida, nas paredes, o verdete

Nas pétalas de rosa, cor vermelha.

 

Os altos prédios com vidrados olhos,

Espelhos, alumínio, pernas de aço,

São frutos, as pessoas, cachos, molhos

que observo, indiferente, quando passo

 

Olhá-los, dá esperança. Sou alguém,

Como se viessem ver-me actuar num palco,

Monumento em ruínas neste além

Paisagem fascinante que decalco.

 

Tal como índio atento encosta ouvidos,

À terra, adivinhando aproximar-se

Fatal perigo, escuto versos lidos

Zumbirem na minha alma a amotinar-se.

 

Faz-me impressão, as mãos que nos empurram

Em frente, à voz do silvo do chicote,

Com imagens hediondas nos esmurram

Moinhos medonhos de Dom Quixote.

 

amo o dom de perder-me no ocaso,

entregue às mãos do céu sem que me espie,

Flutuando nas nuvens do Parnaso

Procuro a estrela que melhor me guie.

 

Janela do meu lar que o mundo vejo,

Fica-me o sonho ao menos de sonhá-lo

Cessar este poema com bocejo

É ser tirano, injusto; é esquartejá-lo.

 

Pois qualquer verso válido apresenta

Sintomas de demência insuperável,

Sinto que é esta loucura que sustenta

A erguer-se, o monumento, insustentável.

 

Pesa-me a fronte este existir menor,

Vivendo em filmes, livros e poemas,

Quero atirar-me da ravina, amor,

Tentando apanhar no ar melhores temas.

 

Num fúnebre cortejo, as nuvens passam,

Nas diligências vãs dos ventos fortes,

Atrasam-se, umas; outras, ultrapassam

Assim os homens tecem suas sortes.

 

Pobre de quem não pode olhar assim,

Desta janela líquida e aquática

Ao poema, incapaz sou escrever-lhe fim

Igual às equações da matemática.

 

Que esperes, dever seco, o sacrifício

Escrevo como o cérebro tem neurónios

Ignoro o malefício ou beneficio,

Também se os versos são da alma idóneos,

 

São construções de areia, altos castelos,

Virá o mar colérico apagar-me

Ou coloridos e gordos novelos

Que venhas Musa, um dia desenrolar-me.

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