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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Confissões

Janeiro 28, 2010

Estendido o azul lençol lavado, no céu que abraço e beijo,

Chega-me, inexplicavelmente, notícias do Oriente

Em mim, palavras convulsas, distantes, palavras ao vento,

Que deixarei que o tempo rasgue e as deite fora.

Ergue-te, espírito adormecido nas cinzas fumegantes

Renasce, Fénix que há em mim,

monta o resfolegante e alado Pégaso,

Pois sinto que sou capaz de vestir os troncos nus

Dos plátanos, ulmeiros, choupos, e as belíssimas

Amendoeiras que, sem flor são mulheres desamparadas

Lançando preces vãs ao mesmo céu que abraço e beijo.

 

Palavras, que quereis de mim? Quem sou para dar

Calma às vossas ânsias, ócio, movimento?

Eu que desejava apenas amar deusas antigas,

Europas, de carne e osso, Ios desafortunadas

Para, sôfrego, bebê-las e entorná-las num papel

que ninguém saberá da existência destes papéis

(Sofram igual destino ao da biblioteca de Alexandria

Livrando-os do fogo devorador do olvido)

Mágoa deitá-los fora; servem para entreter o vento

Eu que ultimamente, lanço imprecações ao vento e apupos ao céu,

E nem por isso me ouvem, condenam, amaldiçoam,

Nem por isso me salvam, ou dão à luz aparições

Nem por isso me inspiram a procissão das nuvens

Nem por isso, nem por nada, nem por outro

Sentimento que venha bater-me à porta,

Como arauto perdido e céptico de qualquer religião

Que vem, em vão, tentar me converter.

 

Apague-se a chama dos outros poetas dentro de mim,

Apaguem todas as luzes dos candeeiros do inevitável,

Apague-se todos os fogos do amor ridículo e ocioso,

Que é realmente um fogo que arde, e até destrói

Florestas que a alma plantou em dias de bonança,

Em dias de folga, que a vida dá em sóis de domingo,

Calem-se as bocas que ordenam, comandam, orientam,

Calem-se as bocas imundas cheias de escárnio e maldizer,

Calem-se as bocas enfadonhas, secas de pó e areia

E as bocas caladas que não servem para nada,

Que adivinhamos terem língua, dentes e decisões

De todas as bocas, de todas as almas, de todos os seres

Que são bocas, que são almas, que são seres,

Que insistem dizer tudo, sem cor nem novidade.

 

Como gostava visitar um dia esse rio onde ninfas se banham

Enxugando, livres, ao sol, seus verdes cabelos

Pedindo às ondas calmas, sensuais do entardecer

Que sejam cantadas, enaltecidas com supérflua poesia.

E enquanto isso permanece na pasta do meu sonho,

Canto, divago, acordo, olho desperto, contorço-me

Como se renascesse num novo corpo, num novo ser,

Como se fosse feito de matéria invisível e deambulasse

Pelo ar, saltando de uivo em uivo,

Até que chegue ao porto onde um dia embarcarei no definitivo.

 

Mas antes de embarcar nesta barca oriunda do Nada

Vejo, espreito, de cesta na mão da minha alma,

Ou seja lá o que isso for, áurea, véu, jardim insubstancial,

Colhendo frutos deste pomar abundante que é a vida

Jardim público chamado Mundo, não nos ocorre cuidar dele,

Por isso a Alma do Mundo estremece mais ainda,

(disseram-me os cavalos marinhos, e as conchas,

E as plantas subaquáticas, anémonas, corais,

Toda a vida marinha posta numa tela azul,

À frente do que imagino vejo e aprendo);

Como se melhor mesmo é sentar-me e assistir a esta beleza,

À distância como se fosse mancha de óleo

Eu, homem, mulher e criança, eu, raça humana,

Eu, que neste instante preciso

Sou roda avariada que precisava ser substituída,

No ofício que me encontro, no poema revestido,

Com o que penso, com o que me ocorre, com o que sinto,

E mesmo não sentindo nada disto, direi que sinto

Para que outros que sentem realmente o que digo se identifiquem,

Tendo o alívio estranho garantido no nosso fundo.

 

Desde o sol coroar o horizonte, ao longe, distante de mim,

Com cores exuberantes, vibrando um suave incêndio,

Desde receber a bênção da primeira brisa matinal no meu rosto,

Desde sentir o primeiro odor da terra húmida e fria,

Contando as gotículas na folha verde e viçosa de árvore

Desde pôr às costas uma mochila leve

Para guardar metáforas colhidas como flores,

Desde sentir-me vivo, e ser perigoso este prazer, perto da Morte,

Num ápice, lembrando deuses inexistentes e antigos

Desde beber nas horas secas, versos líquidos, salgados

Que do outro lado do Atlântico trazem odores marítimos,

Como ondas vigorosas embatem no meu rosto,

E viesse à boca o sal da branquíssima espuma

E viesse nas ondas uma ninfa que me amasse,

E chamasse por meu nome num mundo imaginário,

Para contar-lhe vãs façanhas, para contar qualquer coisa,

Poeta solitário, coiote na vida à procura de beleza

Encaixe imperfeito num mundo nascido primeiro que eu,

Mais velho que eu, mais belo que eu, mais tudo que eu,

Mas que me põe nos olhos, o verde vibrante das planícies,

Das encostas, existentes por trás do manto apolíneo,

Corpos irisados, arcos triunfantes, auroras boreais,

Que não vejo e imagino, e imaginando, escrevo isto

Versos banais que um dia servirão para cobrir o chão,

Para alguém que decida pintar as paredes da casa.

 

Desde o primeiro suspiro dado à nascença do verso,

Desde o cheiro a tinta e papel na minha mente

Desde o primeiro diálogo com as coisas no começo do dia,

Desde lembrar-me que todos temos bilhete apenas de ida

Desde sorrir a quem ao meu lado escolheu receber meu sorriso,

Desde ouvir ecos distantes, trazidos pelo moço de recados dos deuses,

Desde ouvir a voz da primeira pessoa que avisto na fria manhã,

Desde o ruído aquoso da água correndo pela torneira da minha alma,

Desde o cântico das fontes dentro e fora das pessoas

Desde o cumprimento dado de forma mecânica e robótica,

Que o hábito criara, exibindo na mão a autorização do querer,

Desde o que vejo nos olhos alheios, vejo meus olhos

Para saber-lhes de que matéria é feita a sua natureza

Desde túneis sombrios, terra escavada,

Dentada, alterada, puxada, esmagada, batida,

Desde longas serpentes de de negro asfalto

Estígio actual, onde surgira a mão do perigo viajar

Desde saber de cor um verso imortal ou mortal,

Já me valeu a pena.

 

Tanta gente anónima à minha volta! Somos tantos!

Tanto riso, rosto, gesto, que coleccione

Colando na caderneta intocável, forrada a memória

Não me esquecendo de nada levando tudo comigo,

Tudo lhes denuncia serem gente: olhos raiados de sangue,

Mãos grossas e finas, a lisa ou áspera pele,

O cabelo cuidado, em demasia ou desleixado,

As malas, carteiras, mochilas, livros que alguns fingem ler

A amálgama confusa de cheiros e odores que se junta,

A noite, a perfume caro, a perfume barato, a suor salgado, a sexo,

Tudo amontoado como velharias guardadas num sótão

Móveis, delirantes, com bela e grotesca aparência.

 

Nunca me levem a mal por servir-me dos olhos

Pois tudo sabe a pouco e não é nada. Poderia

Contemplar, mas não há tempo, a vida empurra-me insistente,

Escrever é virar-me para trás e gritar-lhe: “Para com isso!”

É dizer que olhando vê-se, compreende-se, ama-se, procura-se

É dizer que amar desliga as luzes urgentes da loucura

Que este voo literário efémero, está longe de me satisfazer

Colinas verdejantes, cobertas por lençóis de azul etéreo

Longe, lá ao fundo, se encontram, ali, além

Para lá do alcançável, para lá do concebível.

 

Ó fôlego que me resta, sopro indecifrável,

Flâmula nascida, centelha insustentável que me toma, me invade

Como te peço que dures enquanto não for árvore,

Frondosa, de tronco firme, tão forte como um rochedo,

Como aquela árvore gigante tridimensional,

Que vi numa sala de cinema, enquanto ansiava

Sossegar a inquietante ânsia de dali sair rapidamente.

 

Também tu, Anfitrite, com tuas níveas mãos,

Escreves esparsos poemas pela costa alvíssima

De areia fina, e as aves procuram no que escreveste,

Do ar, algum sustento que lhes valha.

Sejam as horas essas aves, seja o papel vasto oceano

Sirvam de pautas musicais às músicas sucessivas feitas por mim,

Pois vivo dentro de uma orquestra sem maestro

Formando, antes do concerto, um vácuo ruidoso, ensurdecedor,

Enquanto esperam pela vinda do meu ser.

 

Ó palco, sem rosas, sem cravos, sem lírios,

Sem florida luxúria espalhada no espaço,

Aspergindo no ar neutro perfumes embriagantes,

Com a lustrosa e espessa noite que há no piano

Sem gente que me assista a este concerto desconcertante

Com andamentos nervosos, desiguais,

Iguais aos movimentos da Alma do Mundo,

Reflexo do que somos, tua sinfonia Fantástica, ó Berlioz

Sofrimento poético, a caminho do cadafalso,

Não havendo tempo para amar plenamente as coisas,

Fruto da escolha feita, insciente desta escolha,

Semente plantada em solo estéril, sem chuva e sol

Árvore nascida com os ramos levantados para a Lua,

Estrela cadente, reflexo na água do rosto,

Exausto de cansaço, deste ofício gasto

Descaindo ligeiramente o rosto na almofada,

Fechando lentamente os olhos vagos,

Como a fechar-se o teatro para uma próxima peça,

A mesma, recomeçando novamente um dia,

O mesmo dia exacto, o próximo e novo dia

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