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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Fragilidades

Janeiro 18, 2010

A bordo deste Inverno envelhecido,

Ralo cabelo branco, desgrenhado

Eu vou vivendo a vida consolado

Como se andasse nu, desimpedido.

 

Não sou mais do que penso ser. Quem sou

Que mais poderei ser, que além conheço?

Chamar-me-ei sempre António Codeço

Como a gaivota aflita que passou

 

Não sou mais que a gaivota quando passa,

Planando sobre o céu que tanto anseio

Descubro mover-me sem receio

Eu sou aranha e teia que embaraça.

 

Eu nunca farei parte desta vida,

Forçado a vivê-la mais do que vivo,

Que querem? Da Beleza, sou cativo

Essa Lua sensual, oferecida.

 

Aquela poça de água, à luz daquela

Que em prata vai exprimindo a dor que sente

Enquanto chove, dura vagamente

Tudo é efémero, logo é coisa bela.

 

A mansidão das folhas que se arrastam,

Na árvore, verde musgo indica o Norte,

Vivo à procura de algo que suporte

Minha loucura, enquanto horas se afastam.

 

Já sonho um sono eterno, honesto, honrado,

Meus versos cavalgando a toda a brida

Já vejo vaga Vénus ser despida,

Por minhas nãos de poeta atormentado.

 

Já sinto no alvo peito dor crescente,

Levar-me aonde apontei sem benefício,

O dedo indicador, sem sacrifício

À Beleza indicadora do Oriente.

 

É lá que irei buscar especiarias,

Que me temperem poemas com brandura

Que meus leitores soltem: “Que loucura!”

De amargas bocas secas sem poesias.

 

“Quantos leitores tens?” pergunta o vento,

Com mil dons de aspereza vil, sarcástico

Julgas-te assim, poeta, tão fantástico?

Respondo: “Não! Que importa? É meu tormento,

 

“Achar-me nesta via de incerteza

Tão certo, como entrar num labirinto,

Mas sinto dissipar-se a dor que sinto,

E nisto, ó vento inútil, há certeza.”

 

"É como um santo Graal nunca encontrado,

Como escolhesse ser de mim arqueólogo,

Deixa-me em paz, entregue a este monólogo,

Entre os meus vários ‘Eus’, ó vento irado."

 

Jardim é a alma. Eu hei-de embelezá-lo

Com esse estranho amor que leva à cruz

Válido, quanto o tempo nos reduz

A escombros. O jardim? Escolho tratá-lo.

 

Este ter que ser gente também cansa,

Tento tapar a boca a esta cidade,

Na sombra, na penumbra, em liberdade

E assim voando, agarro-me à esperança.

 

Como de vez em quando urgente, aflita

Ouve-se a sirene da ambulância,

Soa-me sempre a fim, fim da ignorância,

Lá dentro, vai deitado alguém que grita.

 

Ou como aquele pobre homem que tem,

Por tecto, o abobadado céu azul,

Suporta os ventos furiosos do sul

À espera que alguém venha mas… ninguém!

 

Quem pode suportar da terra, o abalo

Furtivo, álgido beijo frio da Morte?

Bondade é mão que ampara, é bom suporte.

Quem trava o Tempo, indómito cavalo?

 

Nos altos céus, erguem-se aéreas pontes

São pássaros de fogo, voo urgente,

Levando às pobres terras do Ocidente,

As puras águas da bondosa fonte.

 

Pois que os escombros dão à luz pessoas,

E a água é mais que ouro, é mais que tudo,

Meu espírito sangrava à bruta, mudo,

Fortuna, aonde estás, para onde voas?

 

O cheiro hediondo a morte impregna o ar

Grávido de terror a carne, a sangue,

Diria a Alma do Mundo jaz exangue.

Quem pode dor tamanha suportar?

 

Explode a bomba em mim em Bombaim,

que o próprio nome indiano enverga a bomba

Alastra fumo, fogo, tudo assombra

Incêndio igual aos feitos de Caim.

 

Se as bombas fossem beijos que explodissem

e abraços fossem todos atentados

eu beijaria as mãos dos contratados

Pra que estas convicções alto se ouvissem.

 

Os Reis da Guerra sofrem de impotência

Já não conseguem ter mais erecções,

Na língua, têm palavras, secreções

Que um dia há-de limpar a Providência.

 

Deviam ser poetas como eu

Alvo único do poético contágio

Tornou-se a escrita mágica apanágio

Das lamúrias que lanço ao vasto céu.

 

São nuvens passageiras, bem vos digo,

Que um dia hei-de montar-me numa delas,

Para encontrar a Ilha das Coisas Belas

Tendo o tempo sempre como inimigo.

 

Pois tudo guardo, sirva de bagagem,

Instantes de ouro fulvo, fino e puro

Brilho dos olhos líquidos no escuro,

Dos que amo e usam a mesma linguagem.

 

Que mais poderei ser, querer, sonhar?

Sigo horizontes com meus dedos finos

Assino o Livro Aberto dos Destinos,

Com versos que o vento há-de declamar

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