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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Vozes interiores

Dezembro 23, 2009

A voz do simples cauteleiro,

Soa-me a trompeta do inferno,

a cantiga de aventureiro

Que ruma ao vazio sem governo.

 

A voz prateada da fadista,

De noite, é rouxinol que canta

Cesse o discurso economista

Que a morte tumular levanta.

 

Na voz da morte há sedução,

Convida, afaga, uma alma triste

Inveja, a vida, a criação

Do mundo, o espectáculo assiste.

 

A voz da Vida é diferente,

Soa a soturno violoncelo,

São cordas que vibram na mente

Que, na ânsia, procuram o Belo,

 

Amálgama eterna, sonora

Metálica, confusa e ácida

É grito na virgem que chora.

Da vida, tão seca, tão flácida!

 

A voz de um homem bem casado,

Injusta, na língua tem fel,

Rugosa de timbre escavado,

Num sonho untado de mel

 

A voz da mulher bem amada,

Traz doces murmúrios do rio,

Põe-nos bom sorriso à chegada,

Aquece-nos no tempo frio.

 

E aquele silêncio que ouvimos

Sussurrar do mundo invisível

É quando sozinhos sentimos

Mistério de tudo. É incrível!

 

Mas a voz do pranto, flagela

Se vinda da alma penada

Uns choram se alma congela

Uns choram por tudo e por nada,

 

E aquele louco que nos fala,

Sabendo mais que os eruditos,

Que toda a ingratidão cala

Se nos queixamos aos gritos.

 

E os rios que regam salgueiros

Os mares que inspiram saudade,

E a sombra de mansos pinheiros:

Possuem vozes de verdade!

 

Do fogo que a lenha devora,

Do ar, que o vento suspira,

Da terra ferida que chora

Do ódio que o amor nos tira.

 

E o riso daquela criança

Timbrada de puro cristal,

Inspira-nos nova esperança

É luz de manhã triunfal.

 

Quererei ouvir outras vozes,

que tragam belíssimos cânticos,

Remédio pra angústias atrozes,

Iguais às vozes dos românticos.

 

Eu hei-de propor à minha alma,

Que reúna vozes variadas,

Criam harmonia, dão calma

a almas mais desassossegadas.

 

Por grutas, cavernas e tocas,

Existentes dentro do ser

Eu hei-de unir milhões de bocas

Que tragam novo amanhecer.

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