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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

To ALL

Dezembro 23, 2009

Por compaixão o poeta nunca escreve,

Nem largo a minha vida para tal,

em mim cai grossa chuva e branca neve,

Digo-te: onde está bem, tu vês o mal.

Ignoro se falhei no alvo certo,

Ou se acertei incauto no alvo errado

Mas Portugal ficou escuro, encoberto

No poema que invocaste vento irado.

 

Se te procuro em horas apertadas,

Porque a saudade obriga e o verso mata,

Porque lançaste nuvens marchetadas,

De cinza (um nó me aperta, um nó me ata)?

Corri ansioso com fome de ver-te,

de via diferente não seria,

com pouco tempo, assim, tento entender-te

que mal espalhei na erótica poesia?

 

que lado feminino vitupera,

Da condição de ser-se masculino,

Que especiaria o amor não te tempera?

(Como não entendo o lado feminino)

Ah quem me dera ser, Musa, mulher,

Para queixar-me ao mundo e cantar prantos,

Querendo o mundo inteiro sem poder,

Não existe o impossível nos meus cantos.

 

eu quando canto meu coração pede,

Que embale no ar levíssimo se posso,

Mas sobrevivo, o ofício me despede,

Se não labuto e aperta-me o pescoço.

temperado no tempo, dar-lhe uso

tendo um lugar para ti, também para mim,

Não me destruas. deixas-me confuso,

Se invocas no papel um mal, um fim.

 

dizer-te que me inspiras talvez seja,

tão pouco quando há muito que dizer-te,

Disse-te que do mar eu tenho inveja,

Porque não posso mais que, assim, querer-te,

E desejar-te ao ponto que me aperta,

espetando a adaga aguda afiada fundo,

deixa-me a porta linda entreaberta

Pra que vislumbre a aurora do teu mundo,

 

De ardentes versos feitos que me inflamam,

Levando-me de noite, a esta loucura,

De só, me amar, enquanto outros se amam

Dando um ao outro jactos de ternura,

Jorros delirantes mornos, quentes,

de fumos lentos nas noites sem ventos

de lúbricas imagens envolventes

espantando desta vida mil tormentos.

 

verei se embrulho um beijo neste verso,

Com fita vermelha de veludo,

Se mo recusas. ficarei disperso,

como se nesta vida obrasse tudo.

Ou se me entregarás ao mudo olvido

Ficando no silêncio na penumbra

Ou se será no meu já esquecido

Por ti, tua tristeza me derruba.

 

Um dia, há muito tempo decidi,

Cuidar do meu jardim, alma infinita,

Deixando entrar alguém que nunca vi,

Ansiosa flor que em verso canta e grita,

Há odores musicais, ânsias dolentes,

Escritos manuscritos e escrituras,

Crescem-me castas flores e indecentes

Exuberantes, sobem nas alturas.

 

flores de versos, poemas, pensamentos

Músicas esparsas nunca feitas,

que a vida adornam, e apagam meus tormentos

entre almas descuidadas, imperfeitas,

Igual à minha que escolha não tive,

Cresci como essas flores que me crescem

Ganhando asas, voando onde não estive

Instáveis serras onde sobem, descem,

 

Em lagos onde as águas se evaporam,

tão límpidas, tão raras, onde o fundo,

existem belos seixos que namoram

Sensíveis mãos que tocam meu profundo,

Cavernas aquecidas com a chama,

Que no coração me arde e ninguém vê

No lodo ou charco imundo onde reclama,

O duro ófício, não sei bem porquê.

 

desvio-me do assunto, eu sei, mas quero,

dizer-te o quanto fui, o quanto sou,

Não quero que me entendas com esmero

Meus versos? Rasga-os... Brisa que soprou

No ouvido, manso, quente e odorífero

Do mar onde mergulhas e me ensinas,

A mergulhar contigo nele e, fero

eu fico, por não ter-te e me fascinas.

 

Durante tanto tempo eu vi-te, assim,

corpo que escalda um deus, minha sereia

A mergulhar nas águas, sobra enfim,

saber se me serias a Medeia,

de artes mágicas, como se invocasses

Ondas tão altas ao azul Neptuno,

Se em mim ao meu teu corpo entrelaçasses

Teríamos os dois 'scrito um poema uno.

 

Vou terminar com minha solidão,

Ociosa, reclamando meu calor,

Cravando espinhos no meu coração

Coroando-o igual ao que pregava amor.

Talvez consiga a imagem na cortina,

Aveludada e negra ter por perto,

Um sol que me descobre e me fascina

Me escalda se caminho num deserto.

 

Talvez me envolva, esse vazio abrace,

Na boca beije, os lábios humedeça

Percorra um infinito e me entrelace,

No ar, igual a um fumo e desfaleça,

este envolver-me sem que ninguém me olhe,

Com olhos viperinos de voragens

este cantar que ninguém ouve ou escolhe

Por encantar-me com mil e uma imagens.

 

Se a tela que pintaste é a Última Ceia

Serei sempre o teu cristo, Madalena,

Se foste mergulhar, minha sereia,

A última vez no mar que se empequena,

se abriste tuas pétalas mimosas,

aos raios do meu sol que em ti dardejam,

Verás que te acho bela entre outras rosas

Cujas bocas sedentas nunca beijam.

 

Ao teu critério deixo o julgamento,

Não de quem sou, por ser-te isto interdito

Talvez consigas ver-me em pensamento,

Me oiças do alto monte este alto grito

Que independente, pena ou benefício

Que vier de ti, ó Musa, só te peço,

Que não me esqueças nunca pois suplício

é esqueceres que inspiras um Codeço 

 

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