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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

O Poeta Amoroso

Dezembro 11, 2009

Eu quero que meus versos sejam lábios

Que, ardentes, beijem lábios de mulher

Não sejam eruditos, sérios, sábios

Beijem apenas onde a mulher quer,

 

Que línguas sejam como as cobras de água,

Nadando em águas mornas, ondulantes,

Extraindo do minério que há na mágoa,

Volúpias e carícias mil de amantes.

 

Que à noite, quando a solidão aperta

No seio da mulher entontecida

Beijem languidamente a flor aberta

Igual à orquídea ousada, embevecida.

 

Que sejam dentes finos, maviosos

De pentes, ao escovarem seus cabelos

E acariciem ombros vigorosos,

Que só de vê-los dá vontade tê-los.

 

Que sejam coxas, pernas, mãos e braços

Na louca orgia de delícias sãs,

Aos solitários, sirvam-lhes de abraços,

Dados nas noites, tardes e manhãs.

 

Demorem-se um bocado, nem que seja

Por um minuto apenas que lhes valha

Custa-me descolar boca que beija

Desabrochada flor que bem se orvalha.

 

Parti, meus versos! Amai esta gente,

Esmagada pela mó cruel da vida,

Afaguem, mordam, beijem docemente

Uma alma alienada só, perdida.

 

Que única sensação vê-los unidos,

Enchendo aljavas com douradas setas!

Pobres daqueles que andam cá perdidos

Sentindo agudas dores de poetas.

 

Ah se pudesse ver entrar nos olhos,

De quem procura em vão meus devaneios

Ouvindo vozes lúgubres de escolhos

Com carinhosas mãos nos doces seios,

 

Desapertando roupas tão complexas

Caindo à volta como húmidas folhas

Dizendo coisas mudas, desconexas,

Como “Vê como, poeta, me desfolhas”

 

“Observa como calas minhas súplicas

Que inúteis, atirei-as ao ar, ao vento,

Vê como, com teus versos me duplicas

O gozo de viver, em pensamento.”

 

“Escuta meus gemidos, mansas árias

Que do meu peito escapam como pombas

Batendo asas, rasgando indumentárias

Difíceis. Expludo engenhos, minas, bombas!”

 

Ou quem comigo viaja de comboio

Sentada à minha frente murcha e só

Madura idade, a rigidez do joio

Viu seu casório transformado em pó.

 

De olhar distante lembra os tempos que era

“A violeta mais bela que amanhece”

Esquecida e apresentada como fera,

Por quem ignora o mal que a flor padece.

 

E aquela que no escuro, na violência,

Sentira o alcoólico hálito do crime,

Ficando sem pureza, sua essência.

(Que alguém no futuro a ame, a estime.)

 

Será, que ó Vénus, mãe do amor menino

Irás ler estes versos inspirados

No lúdico calor, acto divino

Entre dois corpos por ti temperados?

 

Será, ó Deusa excelsa, que nasceste

Na concha nacarada no mar cerúleo

Aprovarás meus versos que não leste

Tornando teu desejo imenso, hercúleo?

 

Será que estou do Inverno adiantado

Sentindo rebentar a Primavera,

Por recusar-me não ter este fado

Onde me opunha transformar-me em fera?

 

À noite escuto a música dos grilos,

Que na verdura montam-se aninhados,

Em gritos, gritos loucos, mas tranquilos

Cantam por se sentirem bem amados.

 

Parti, meus versos, voai por brandos ares,

Procurai quem padeça da miséria,

De lhes vedarem doces despertares,

Pondo um sorriso à vida que anda séria.

 

Transponde os altos muros da discórdia

Erguidos entre o homem e a mulher,

Uni mãos, corpos, sexos, em concórdia

Vivemos na penúria do prazer.

 

Melhor ginásio que este não existe

Que invoquem vaga Vénus no começo

Fora daqui a quem isto resiste

Lançando ao Tejo o que invocou Codeço.

 

Tu que encostaste teu nevado seio

À lusa caravela no Oriente,

Salvando-a da cilada, dá-me um meio

A cura que me cure alma doente

 

De imaginar o mundo a amar-se tenho

Vontade amar também inteiro o Mundo

Apupem-me de louco, triste, estranho

Os que verdete e lodo há no seu fundo.

 

Mentira estranha e atroz, que triste lado

Quando escolhemos mal por preconceito

Sinto-me enlouquecer por ver-me atado

Tão só, por ser humano e não perfeito.

 

Por este mundo fora reparara

Na liquidez dos olhos tão vermelhos

Das lágrimas escondidas que enxugara

Por quem anseia amor, novos e velhos.

 

Sugais, mas sem ferir doces mamilos,

Sensíveis, radiantes, amorosos,

Livrai da dentição dos crocodilos,

Que são ferozes, vis e mentirosos.

 

Quem neste mundo vive só da guerra,

É por não ser na cama bom amante,

E quanto mais guerreia, mas se enterra

No seu terreno Inferno degradante.

 

Quem ouse amar por vício, nunca o faça,

Não lhe soprará vento favorável,

Levando-o ao mar que logo o despedaça.

Saiba tornar-se respeitoso, amável.

 

E àquelas que se julgam detentoras

De altíssimo tesouro indescritível

Devem lembrar-se que o tempo, senhoras

Passa e nunca mais volta, irreversível.

 

Quem padecer de dores de cabeça

Melhor exercitar ossos e músculos

Que passam logo as dores bem depressa

Tornam-se insignificantes, minúsculos.

 

Homem, com mãos ásperas, masculinas

Sê hábil nessa dança de cintura

Da amada; mas nas partes femininas,

Sê poeta delicado com ternura.

 

Entre saliva e suor vapor libertem,

Igual à Natureza que tem espasmos,

De escaldantes vulcões que lava vertem

É assim que a Terra atinge os seus orgasmos.

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