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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Indiferença

Novembro 27, 2009

Anónimo, sem rumo, andando pelas ruas,

Sem ter noção do tempo, nem sequer da Morte,

Saí! Fui ver-te, Vida, como amas e actuas

Nesta cidade antiga que me coube em sorte.

 

Plátanos e choupos, agitam-se no Outono,

Vê-se no chão tapetes de douradas folhas,

Olhando à volta sinto nos semblantes sono

Para encontrar a Vida, ó céu, finjo que me olhas.

 

Vestem casacos curtos, longos, uns compridos

Senhoras com vestidos de lã insinuante

Eu sou o céu que olha os seios comprimidos

De elegantes mulheres com ar triunfante.

 

Na altura em que Maria deu à luz Jesus,

Uns dizem que em Dezembro, outros num mês qualquer

Enfeitam-se árvores, prédios com jogos de luz

Por homens pendurados bem no amanhecer.

 

Jaz um guarda-chuva morto no passeio,

Foi sepultado ali. Por epitáfio tem

“Servi, honrado, alguém como bem lhe conveio,

Vivi sem ter vivido, sem ter sido alguém.”

 

Eu tenho, por rotina, nas manhãs iguais,

Ver um homem dormir, numa porta de entrada,

Dum prédio onde, elegantes, vivem racionais

Doutores, arquitectos, com vida abastada.

 

E as árvores estremecem no meu pensamento

Na minha mente caiem folhas de ouro fino

E pétalas de flores, travam meu lamento

Que um dia poderei sofrer igual destino.

 

De vê-lo, amaldiçoo Deus e o diabo,

Somos jogo de damas destes dois patronos

Dói-me a cabeça disto, a fronte, os pés, o rabo

Por sermos múmias vivas, mortos, bestas, monos.

 

Nisto, entro, soturno no covil sombrio,

Depois de ver miséria, ignoro vãos lamentos

Nos ares confortáveis não chove ou faz frio

Vivem ignorando alheios sofrimentos.

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