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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

Inconstância

Ó gratidão que sinto quando vejo

Imagens que, gentis, meus olhos dão

Esta abundância à beira do rio Tejo,

 

Tangendo cordas mil no coração,

Da minha boca os ais que vão saindo

De mor espanto, afastam a solidão,

 

Dando lugar às aves que vêm vindo,

No ar; juntam-se alegres, na harmonia

No espaço que entre si vão dividindo,

 

Trazendo-me esta estranha poesia,

Da placidez das águas transparentes

Às pedras dando calma e cortesia,

 

Sem românticas e abstractas correntes

Reflexo desse bem que muito quero,

Correr alheio aos versos decorrentes,

 

Livre de angústias, mágoas, desespero

Extrair deste correr tão calmo e brando

Andar sem pensamento, força e esmero,

 

Como este rio que vai, gentil, lavando

O mal que trago em mim lá da cidade,

Lugar sinistro, obscuro, que apagando

 

A doce vida vai em tenra idade;

E as deslumbrantes cores variadas,

Das flores colorindo a ociosidade,

 

De vê-las florescentes, espalhadas,

Por verdes campos perfumados delas

Fragrâncias várias, novas, entranhadas,

 

Nas árvores, nas coisas que são belas,

Guardando em mim, no império da memória

Como ser impossível de vencê-las,

 

Entoando suaves cantos de vitória,

No estremecer das folhas outonais,

Nas árvores, antigas como a história,

 

Do cântico das aves musicais,

Que vivem simplesmente, obedecendo

À lei das coisas simples, naturais

 

Que sempre foram mais das que vou tendo.

Por isso, este conter meu pranto inútil,

Não dá felicidade. Mas bebendo,

 

Com ávidos olhos, tornou-se útil

Por que este bem celeste o peito amplia

Dando-me guerra ao meu lado mais fútil,

 

Como se me envolvesse a luz do dia,

Me amortalhasse o corpo, me dissesse:

“Crê que há mais força nesta poesia,

 

Ânimo, coragem pra que nesse,

Mundo em que vives vejas claridade,

Dom de quem ama a vida e nada esquece.”

 

Do Belo em busca, amante da verdade

À sombra do simpático salgueiro,

Planto a semente em mim, nova vontade

 

Que me dê fruto, como um pessegueiro,

Que me floresça mirto imaculado,

Ou sombra generosa do pinheiro

 

Sentindo haver no verso um ser alado,

Sobrevoando terras mais estranhas

Por me impedir sentir-me astro eclipsado,

 

Sentindo a força bruta das entranhas

Subtil leveza nos suaves dedos

Ousando usar de Ulisses suas manhas,

 

Ah assim fossem meus duros degredos,

Igual ao paraíso adormecido,

Afugentasse o fogo que há nos medos,

 

Sempre na terra andasse tão perdido,

Tratasse do jardim da minha alma,

Regando flores como um rio rendido

 

Que à sua Beleza trouxe calma,

Sentir ferocidade de existir

Amar é contemplar, abranda, acalma

 

No ritmo maquinal que há no porvir

Que, passo a passo, rouba-nos pureza,

Tentando gota a gota suprimir,

 

Os dons que o homem extrai da Natureza

Enchendo-nos de gulas perigosas,

Vivências vãs, iguais numa certeza,

 

Grávida de sementes horrorosas,

De áridos ventres, cheios de cansaço,

Longas fadigas, com pompas e rosas,

 

Cobrindo eternamente o sol no espaço,

Fazendo escorrer sangue à maga Lua

Que há numa vida imune ao doce abraço

 

Ser consciente: a vida vai, flutua

No ar, batendo aflita asas de cera,

Fugindo ao escaldante sol que actua.

 

Ah, quem fica à sombra assim e espera,

Um bem mover-se bem dentro de si,

rugido violento de uma fera,

 

Ó rio, por olhar-te me perdi,

Pões-me, só por seguir-te, melancólico,

Teu curso exacto que nunca segui,

 

Neste cenário idílico, bucólico,

Alheio ao pensamento e romantismo,

Liberto agora do furor eólico,

 

Vieste enriquecer meu erotismo

Minha sensualidade de sentir

Deste água fresca à boca ao meu lirismo

Na valiosa esperança de existir.

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