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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

Alma Citadina

De vez em quando fujo às garras da cidade

Grotesco empório vil do gozo, ouro e prazer,

Procuro no silêncio, longe da vaidade

A calma para ser.

 

Ó céu cortado às tiras pelos altos prédios,

Telhados e vazios castelos sem princesas,

Os meus sentidos tremem, sofrem mil assédios,

Das mil luzes acesas.

 

Ó estrelas que vos vejo, à noite quando a Lua

Sobe de mansinho, meiga, devagar

Trepando o aveludado céu que continua

Pra, terna, me embalar,

 

Cansa-me escapar das mãos quatro estações,

Aqui não há Verão, Outono, Primavera,

Sinto o Inverno frio gelando corações

À sombra da Quimera.

 

Ah, que fadiga, ser alguém que nunca fui,

Que apodrecido bem nasce do fingimento,

Vulcão contido, acorda, em mim, em jactos, flúi

Lava de sentimento.

 

Sinistro estremecer das árvores doentes,

Esquálidas, no início na outonal estação,

O lúgubre ranger de apodrecidos dentes

Mordem meu coração.

 

Esta cidade fala aos encontrões, aos gritos

Sobe a pobre gente, exausta, a escadaria

Como nuvem compacta traz ventos malditos

O caos e gritaria.

 

Tu, cidade, tens tentáculos, elegância

Milhões de almas seduzes, que andam cá perdidas,

De ti sou fugitivo, amo a bela Constância

E as árvores queridas.

 

Tu és a Flor do Mal que fujo só de vê-la,

Tão bela exuberante, tóxica e mortal

Insípida mulher que os lobos querem tê-la,

Insípida e banal.

 

Da libido é a culpa, corre nas artérias,

Na escuridão pesada logo ao amanhecer,

Amo-te recatada e linda pelas férias

Depois, ninguém te quer.

  

Em ti, filha das trevas, cresce-te a semente

Germina um mal crescente, nunca acaba bem

Por isso quando posso ocupo minha mente:

Olho o Oriente, Além.

 

Quando sombras sinistras vencem a luz clara

Escuto o insondável, fúnebre e fatal

À espera, na penumbra, o verso que me ampara

Metáfora celestial.

 

Ao longe, um relicário acende-se comigo

E pelo Tejo entorna sumo alaranjado

E num conforto dúbio, arranjo bom abrigo

No céu mistificado.

 

A ponte honrando ilustre herói Vasco da Gama

Ostenta, debilmente, um cinto coruscante

Serve-lhe, por baixo, um negro pez de cama,

Qual Inferno de Dante.

 

Se me sobrasse tempo, os olhos lançaria

Para encontrar riqueza no lar onde vivo,

Surge-me, porém, cantar de noite o dia

Igual e cansativo.

 

Que sensações insanas, vagas e complexas

A máquina falível gera pra sofrer

Tantas almas proscritas, mortas, desconexas,

Buscando ouro e prazer

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