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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

A voz que vem do fundo

Dispo-me a pensar nas coisas trágicas.

Fechando os olhos, vejo imagens mil

Fulgurações de unidas pedras mágicas,

Como vivesse inquieto num covil,

O que senti guardei, não me foi extinto

Enterram-se na alma mil tesouros,

E o que vivera é a ideia do que sinto,

Do que senti, nunca me deram louros.

 

Ó alma inebriada, entontecida

Espantada com tão pouco mas que é tanto

Saúdo, ó gente que anda cá perdida

Que amor, que inspiração me causa espanto,

Meus olhos são gentis porque me guiam,

Meu espírito, ansioso por sentir,

Devora tudo, ignora o que diziam

Sobre encontrar sentido que há-de vir.

 

Não fez sentido algum, viver é nada,

Vaga ilusão, mentira, ânsia, queixume,

Beleza, eu te procuro, és minha amada

Amante, sem mentira, sem ciúme,

Amor livre, benéfico que dói,

Saber que à volta tudo é perecível,

Sabendo que a Beleza se destrói

Com selvático gesto, horrendo, horrível.

 

Dói-me pensar encher meu coração,

Milagrosa beleza, inesgotável,

Dói-me estar só entre esta multidão

Fingindo ser rei mas tão miserável,

Escuto-me, inconstante, nesta sombra

Gerada pelos raios da razão

Ergue-se a loucura que me assombra,

Trazendo pânico, ânsia, confusão.

 

Meu coração transborda de contraste

Brincando o sol no rio parecia,

Enchendo de cristais que me lançaste

Quando contigo nosso amor fazia,

Movia, lentamente, o espelho na água

De pedrarias feito, cintilantes,

Como de mim moveste minha mágoa

Nascida antes de ti. Sim, muito antes...

 

De noite é quando as luzes da cidade

Parece um santuário cheio de velas

Suspiro como soubesse a verdade

Sou sentinela entre outras sentinelas.

De dia cheira a tédio, ócio e dever

Minha alma trepa ramos ressequidos,

De árvores esquálidas a arder

Sentindo a sonolência dos sentidos.

 

Que bem virá colher desta seara

Humana, ou bem se extrai da fina-flor?

Lembro-me dos sonhos que plantara

Em verde idade, imune a qualquer dor.

Degraus do tempo, desço-os, retrocedo

Tenho sido um turista no passado

Razão para vencer humano medo

Continuar, sem ter medo atrelado.

 

Cantar bem alto o mundo é dura empresa,

Cantar-me, pior, parece-me impossível

Que bem maior cantar a Natureza

Que nos esconde deus ser bem possível

Ó acto irreversível que é sofrer,

Possa manter distante o sal das feridas

Delas orgulho nasce. Isto é viver,

Ó Almas volúveis que andam cá perdidas.

 

A luz do candeeiro cai no chão,

De mármore, enchendo o chão de sombra

Movo-me, contorço-me, mas não

Apago a luz a tudo que me assombra,

Deram-me o dom do ousado rouxinol

Deram-me o dom também da cotovia,

Cantando à luz da Lua, à luz do sol,

Enchendo o quarto escuro de poesia.

 

Ó máquinas, ó céu, ó gente, ó terra,

Ó homens da ciência, até de deus

Ó linha que contorna a verde serra

Todos os rios e mares são ateus,

Tudo me inspira, tudo me fascina,

Tudo me encanta, tudo me enriquece,

Em tudo, há uma voz que me destina

A guardá-la, quando ela me aparece.

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