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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poema fora de água

Setembro 30, 2009

Serei o único atormentado pela passagem,

Ignoram. São felizes. Falam outra linguagem

Sou um país distante longínquo, desconhecido,

Desta barca da vida, sou náufrago, perdido.

Bóio num mar inacessível a quem quer,

Saber além do mar, muito mais que ter: ser!

Ignoro e passo, furo a imensa multidão,

Finjo ser a luz que afasta e espanta a escuridão.

 

Serei o único que fala da angústia e desespero?

Ilha inexplorada no Pacífico que quero,

Mas hei-de ter um dia, nos olhos esse brilho,

Verde, olhando a costa, para contar-te, filho

Que é preciso sair deste círculo de fogo,

Viver é outro lado das coisas que interrogo,

Esparsos, meus versos, são brincos de oliveira

Ou cachos de uvas podres de velha videira.

 

Serei o único a pensar que tudo é incrível,

Sonhando ser capaz dobrar o impossível,

De construir cidades, perfeita arquitectura,

Forjando império cíclico na alma enquanto dura

A vida num papel imaculado e virgem,

Nos céus corcel alado, voo e… vertigem!

Sou gigante que montanhas amontoo,

Antigo aedo que meu canto forte entoo.

 

Bem sei que não serei nisto que canto o único

Canto… sou aquele que canta sem ter público

Que pensarão de mim? Que importa? Nesta idade

Já nada do que dizem soa-me a verdade,

Mais verdadeiro é aquele pombo pardo além,

Que sobrevive e voa com outro igual também.

Ou árvore antiga de fortíssimas raízes,

Crescendo ignorante de regras e matrizes.

 

Escrevo num prazer de virgem que perdeu

Sua poética pureza lembrando que aconteceu,

Escrevo, à procura do prémio de consolação

Escrevo, como sinto a própria pulsação

Escrevo para saber notícias do Oriente,

Como se ignora tudo, cá no Ocidente.

Escrevo, como as águas correm no ribeiro,

Escrevo como dá sombra este pinheiro,

 

Escrevo, em segredo, como se olhasse as blusas

Um universo insólito de ninfas, novas musas,

Como se lentamente minha mão ousasse,

Entrar no Paraíso e um pouco lá ficasse,

Escrevo como os dedos dentro de uma flor,

Que aguçam os espinhos, hirtos de pudor,

Escuros e rosados, mudos, salientes

Versos feitos língua, lábios bem mordentes.

 

Escrevo e saberei mais tarde se valeram,

As rosas que lambi, os beijos que me deram,

Escrevo sem seguir atalhos, sendas, trilhos

Como mãos arrancam apertados espartilhos

Eu tenho mil segredos, sofro de obsessões,

Sombra do martírio, livre de equações,

Arrasto ânsias e medos, ritmos sincopados,

Melífluas aflições de poetas embriagados.

 

Escrevo sem saber que irei dizer agora,

Para mandar o tédio e a lucidez embora

Escrevo para crer no canto das sereias,

Ou ninfas a correrem nuas p’las areias,

Trocando mil carícias, dedos, mãos e braços

Imaginando Safo entre beijos e abraços,

Sejam, versos meus, eflúvios, sal, suor

De selváticas fêmeas cheias de langor.

 

A sugestiva orquestra de mãos, braços, dedos

Onde se afogam mágoas, dores, ânsias, medos,

Aliviando a cólera contida de pirata,

Roubando ao Sol o ouro, à Lua cheia, a prata,

Polvilhando de pós, óleos e especiarias,

Os corpos esculturais cheios de ninharias

Sejas, verso meu, o dedo que adivinha,

No cálido segredo o enigma que não tinha.

 

Escrevo sem saber de rima, regra, ou ordem,

Por uma vez na vida, escrevo na desordem,

Mas saberei daqui a uns breves instantes,

Se deverei cessar o que comecei antes,

Repara, flor-de-lis, a noite branda cai

Sucumbe ao inevitável. O olho do Sol descai,

Afasta, sonolento, azuis lençóis do mar,

Poema, abres a boca… Tens sono! Vai-te deitar!

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