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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Longa vigília

Setembro 24, 2009

Saúdo-me na noite silenciosa e terna,

Na longa vigília, estirado na cama da minha alma,

Saúdo-me, ó nervos eternamente em reboliço

Revolto, como as águas frias do Pacífico,

Saúdo-me, sozinho. Não há ninguém para saudar-me,

Saúdo-te a ti também, vizinho anónimo, desconhecido

A ti, palmeira, a ti arbusto, a ti, ó flor

Os carros em fila parados, dormindo, à espera

Que os reanimem e os levem daqui para fora.

 

Saúdo a mentira atroz dos solitários doentes

Saúdo-me porque uso do verso livre para mentir

E toda a literatura que fizera, a que farei, e a que não faço,

É toda uma saudação das sensações imprevisíveis

Saúdo-vos, almas artísticas, poéticas, desconhecidas

Perpetuamente inquietas, doridas, amaldiçoadas

Por lhes vedarem a felicidade e não os olhos,

Por lhes barrarem o caminho à porta da fama,

Por lhes estenderem a mão, como esmola entregue ao pobre,

E disto o pobre ri-se e alegra-se com pouco,

Por suas almas ascenderem realmente à escada do céu,

Por haver Beleza, por haver Vida, por haver Morte,

Por que se abrigam da ignorância

Como se chovesse torrencialmente a noite inteira,

Saúdo-vos a todos, a todos como eu, diferentes de mim,

Saúdo-vos, sem rostos, amigos desconhecidos.

 

Saúdo a estrada, lá em baixo, dos carros quando passam,

O mar que não vejo, o rio que alcanço, a Lua escondida

As estrelas, testemunhas fixas, cintilantes,

Dos nossos feitos, dos vossos feitos, dos meus feitos,

Únicas admiradoras do que plantamos e erguemos,

Únicas ouvintes da nossa angústia única.

Ah, não ser a estrela mais brilhante dum céu inexistente,

Ah se fosse o orvalho matinal na primavera

Ou chuva milagrosa e miúda, e regasse as flores,

Lhes desse cor e as podasse, e as ouvisse,

Daria para ser jardineiro no lugar de poeta,

Pois este solo fértil, terra branca e ampla de papel,

Farta-me e cansa-me, embala-me, enjoa-me,

Como se viajasse num cruzeiro sem fim,

Ou fosse ilha inexplorada no meio do Pacífico.

 

Quem serei no futuro para me saudar,

Ou para me vaiar, desfazer em cinza ou sonhos de espuma,

Crescer-me hera à volta, cobrir-me de musgo verde

E libertar-me, explodindo de vez, Big Bang em mim

Cessando o farejar da natureza dos outros,

Como o cão ladra quando pressente a presença de um estranho?

Irão ter comigo os que me amam,

Esperar-me-ão à entrada do palácio do outro mundo,

Ah, vida, que não sei saudar-te de outra maneira,

Senão pôr em papel às escondidas

Pois ser poeta é estar doente da alma

Ter gula de sentir mais o que outros sentem,

Ter ganância de sentir o que mais ninguém sente

Sem que em vida desejasse ser

Isto que não sou…

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