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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

A casa das minhas tias

Setembro 22, 2009

Deu-me para travar esta torrente,

De cristalinas lágrimas. Que aperto

Ver lugares onde fui contente

Em ruínas! Ó Tempo, que desconcerto!

Parecia que as vinhas me falavam,

Falar-lhes agora é impossível,

Tombaram, onde sombra me espalhavam,

O tempo passa certo, exacto! Incrível!

 

Rústica casa alegre, ó minhas tias

Ficou apenas vosso a vossa alma,

A mesa, onde pousavam iguarias

Coberta agora de hera, morte e calma

Estranha, oposto à vida que antes via

Com olhos postos só no meu futuro

Sinto quase a voz de quem dizia

Que: “tu, menino tens coração puro.”

 

Caminhos de pedra que guardais

O murmurar das horas que passava

Cantando, incauto, alegre com pardais

Fingindo que a videira me adorava.

Ó rústico lugar, hoje moderno

Aqui e ali, a estrada, a mão humana,

Deu-me a mudança tempo, fogo e inferno

entregue a gente má, vil e profana.

 

Cuidaram possuir, não de guardar

No fundo este lugar serviu de herança

Tristes, meus olhos vêm a passar

Minhas tias, quando ainda era criança

Ali guardavam coelhos e galinhas

Onde passava as horas perto delas

Ouvindo frases simples das vizinhas

Entre risos, nos olhos, piscadelas.

 

Os cachos cheios de uvas purpurinas,

Aquela sombra entrecortada a meio

O riso colorido das meninas,

Vindo de longe, sempre sem receio

Logo na entrada as boas vindas dadas,

Por majestosas rosas que aspirava

Odor paradisíaco, desmanchadas

Em risos, onde a brisa as suavizava.

 

Zumbiam no ar exércitos de insectos

Contra as abelhas, vespas conspiravam

Entre heras, silvas, árvores e fetos

Contra abelhas, as vespas guerreavam

O gato, pachorrento, sempre perto

Aninhado aos pés das minhas tias

Contando histórias dele, de tão esperto

Como era inteligente todos dias.

 

Que aperto! Aquele poço de água fundo

De pedra, pensativo; o tanque, ao lado

Sempre útil, jaz agora, moribundo

Antes, cheio de água e espuma, hoje quebrado…

Deixas-me, ó tempo, a marca da certeza

Viver hoje, mais tarde, relembrar

Vivo às apalpadelas na incerteza

Se hei-de voltar aqui a este lugar.

 

Trancado a sete chaves, interdito

O silêncio sepulcral do abandono,

O suprimir da lágrima, do grito

Este lugar ser hoje um cão sem dono,

Onde prosperam ervas esparsamente

Onde já ninguém ri, fala nem vive

E o tempo corre, corre lentamente

Saudade, ó coração: pulsavas livre,

 

Meu sentimento torna-se sombrio

Torno-me pensativo, sorumbático

Meu trémulo coração geme de frio

Olho distante, vago, fico apático,

Meu lábio descaído, olhos brilhantes

Aperto o pranto à porta do meu ser

Repito, intimamente: “como era antes

Sinto-me este lugar, a envelhecer…”

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