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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Diário Citadino

Setembro 10, 2009

Saber o que não quero é acessível,

Meu qu'rer é a longa linha do horizonte,

Tenho funestas ânsias de Faetonte,

Meu desejo nefasto e impossível.

 

Meu ninho quente, doce e morno lar,

Persigo a sensação absurda e rara,

Saber o que me inspira, o que me ampara,

Como encontrar no céu a estrela polar.

 

O que me envolve aperta-me o pescoço,

Tirano dedo que me aperta a ferida,

Vi sempre minha vida dividida

Entre o que nunca pude e o que não posso.

 

Relembro vagamente a doce infância

Navio que se afasta do amplo cais,

Cravam-me estas imagens mil punhais

Vivo a gerir, fatal, minha inconstância.

 

Se não gravasse o mundo que me envolve,

Vivesse o dia a ver o sol esconder-se,

Veria o pensamento a desfazer-se

Em branca espuma: o mar, tudo revolve.

 

Penetro, na cidade, túneis escuros,

Cheios de crime e sombra, luz e pânico

Sonho ser imortal, poeta titânico,

Sonho co’ a exactidão dos versos puros.

 

Guardo o arrastar sinistro dos papéis,

Espalhados como folhas outonais,

Tapete dos mendigos ancestrais

Que dormem juntos de ricos painéis.

 

Guardo o rugir mecânico, sinfónico

Dos incontáveis carros melancólicos,

Os cânticos sem esp’rança dos alcoólicos

Do infortúnio, em som estereofónico,

 

Da milagrosa luz dourada e terna,

Lançada pelo louro Apolo, ao vê-lo

Passando os dedos pelo seu cabelo,

Ao fim da tarde cansativa, eterna.

 

No vago olhar, disperso de quem espera

Vencido, paciente, o fim dos dias

Por entre gente cheia de ousadias,

Com vestes ricas, ar de quem impera.

 

O alívio dos comboios cheios de gente

O ensurdecer horrível na cabeça

Que aperta, empurra e passa quem tem pressa

Custa viver a vida calmamente.

 

As plataformas de pessoas cheias

Parecem juncos, canas ondulantes,

Maleáveis flores, cores deslumbrantes,

são menos, as bonitas; mais as feias.

 

Respira-se o ar pesado, a impaciência,

Pungente grito agudo da criança

Ser Mãe constantemente é duro e cansa

Esta é a Lei da Divina Providência.

 

Cravam-se olhos ansiosos nos cartazes,

Revistas e jornais, filmes, concertos

Eu que procuro oásis nos desertos,

Tento fazer comigo mesmo as pazes.

 

Minha imaginação é uma mesquita,

Com cúpulas douradas onde o céu

Se oculta com um verso íntimo, meu

Quando a inspiração rara me visita.

 

Se meu sustento viesse do talento,

Que há muito tempo tive no passado,

Eu viveria alegre, abençoado

Tapando a boca imunda ao pensamento.

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