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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

O Extremista

Setembro 03, 2009

Às vezes sou selvagem,

Arrogante qual leão,

Sou às vezes tão submisso

Infeliz qual pobre cão,

Às vezes sou a águia,

Escolho o alvo, vejo bem

Lebre esquiva, aventureira

que no prado corre além.

 

Às vezes sou violento,

Sou abstracto, indefinido,

Mórbido, imundo, nojento

Receoso, destemido

Sou às vezes leve brisa,

Valiosa no Verão,

Sou a ilustre Mona Lisa

Ardendo num caldeirão

 

Às vezes sou a cobra,

Mordente nos mil dizeres

Sou equivocado como,

Nobre povo em seus dizeres,

Às vezes uso a máscara,

Personagem teatral,

Para quem não me conhece

Para quem me quiser mal.

 

Brando, às vezes como o rio

Fresco Zêzere, vagaroso

Celebrado, antigo Tejo

Imortal e lacrimoso,

Às vezes sou sonhador,

Petulante e atrevido

Melancólico, tão triste

Numa teia envolvido.

 

Às vezes sou o tigre,

Camuflado solitário,

Repelente, sou miséria,

Quanto vale meu salário,

De poeta, que não sabe

Quanto vale em peso de ouro,

Ignorando se seus versos

Luzirão como um tesouro.

 

Às vezes falo em código

Sem querer codificar-me,

Sem haver valiosa pista

Se preciso desvendar-me,

Às vezes traço um círculo,

Definido, inconsciente,

Fogo ardente que me impede

Ver a Aurora do Oriente.

 

Sou às vezes intranquilo,

Sou mar temperamental,

Esquivo às vezes qual esquilo

Fugitivo de seu mal,

Sou no ar veloz falcão,

Paira sobre verdes montes,

Procurando que comer,

Metáforas, novas fontes

 

Sou a rectilínea sombra,

Da cidade, nas conversas

Sou um manto espesso, escuro

Nas palavras mais adversas

Às vezes sou semanas,

Que nos custam a passar,

Longos anos, longos dias,

Que ninguém quer recordar.

 

Às vezes sou espinhoso,

Do aromático pinheiro,

Qual cipreste, arbusto, planta

Choroso como o salgueiro,

Agressivo se sentir

O perfume da mentira,

Brando se oiço alguém cantar

Como nunca antes ouvira.

 

Sou assim, Outono Inverno,

Primavera e o Verão

Espasmo feito de lembrança,

De esperança e solidão,

Sou o abraço do soldado

Que abraça sua mulher,

Na sofrida despedida

Que anseia voltá-la a ver.

 

Sou colina, sou rebanho,

Sou as ervas, sou comido,

Pelo tempo ruminante

Pelo mundo sou bebido,

Dobradiça de uma porta,

Que se impede de fechar,

Sou a chave a porta abrindo

Pra sair de mim e entrar.

 

Sou o claustro de mosteiro,

Muro das lamentações

Sou fiel, sou companheiro

Combatendo tentações,

Sou demónio do céu expulso,

Ascendente alma do céu,

Beijo abraço por impulso,

Talento que deus nos deu.

 

Tenho livros, bibliotecas

Lidos nos meus vagos olhos

Tenho CD’s, discotecas,

Bandas, músicas aos molhos,

Tenho vícios e maus hábitos,

Como qualquer animal,

Sou artista, sou guerreiro

Demoníaco, angelical.

 

Sou límpida água de um lago

Numa floresta encantada,

Sou fétida água de um lago,

Na cidade condenada,

Sou doença, verme, insecto,

Sou a cura, a mão que mata,

Coração puro, impuro,

Mão que o nó ata e desata.

 

Tenho o dom ser toda a gente,

Maldição não ser ninguém,

Tenho dois pólos na mente

Tenho o que mais ninguém tem:

Nem que seja único nome,

No que fiz, no que farei

No que vou escolhendo em Vida

Se da Morte eu nada sei.

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