Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Flutuação

Dezembro 17, 2008

Tenho defronte a imensidão na tela

Pinto nela o retrato dum proscrito,

Que não se cala e julga a vida bela,

Dançando um Quebra Nozes no infinito.

Preparo agora amor a minha herança,

Nas horas superiores de cansaço,

Concede-me num instante, cisne a dança,

Nas águas transparentes. Um terraço,

No mundo onde escrevesse a vida inteira,

Numa hora apenas, só, num verso apenas,

Um eco a propagar-se na certeira

Eternidade. Actor em várias cenas

Dentro de Vénus estar apaixonado,

Cismando ver o filho adolescente,

a aljava esvaziar das setas, dado

Às contradições ásperas da mente,

Alívio que se eleva e leva o vento,

Canções que nunca cansam de se ouvir,

Estalar dum copo do meu pensamento,

No chão escorregadio de sentir,

Deixa-me ver o que não posso ver,

Agora neste instante em que passamos

No teatro humano, deixa, deixa ter

O mais que nesta vida suspiramos,

Um sopro agudo e mágico de alívio,

Dois corpos nus sinceros sem sarcasmo

Cativo o desprender do seio níveo

O espasmo sincopado dum orgasmo,

O ritual igual depois que estamos

Metidos nos lençóis, comprometidos

No amor que cisnes juntos nós dançamos

Condenados, anónimos, despidos

Na sombra esclarecida duma noite

Vestida com as roupas de um cometa

Em que se sente ouvir lá fora o açoite

Dos ventos desordeiros, noite preta

Gelada, crua, débil, silenciada,

Pelo silêncio débil impossível

Pela Lua adoecida amarelada

Beijando ternos lábios do Invisível

Aqui no meio imundo e miserável

Debaixo dum céu lívido opressor

Onde Dezembro o sol é adorável

Onde sucumbe a terra de langor.

Explico-me em verso. Não há quem me explique

Nem equações, matrizes, derivadas

Teorema milagroso que se aplique

Minhas ânsias inúteis, alteradas

Em frente, sigo em frente, abrindo portas

Na terrível escuridão de ser-se humano

Memória, meu valor, nas horas mortas

Para extinguir o rasto ao meu engano

Quem nunca mendigou na porta errada

Amor, qual vendedor de enciclopédias

Sentindo mão jocosa a ser fechada

Bebendo escuridão nos claros dias?

Quem nunca sentiu ódio por ninguém

Deixando entrar um ódio corrosivo

Tomando o leme à barca que não tem

Um forte capitão que grite: “eu vivo!”

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2012
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2011
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2010
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2009
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2008
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2007
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2006
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2005
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub