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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Versos crepusculares

Novembro 19, 2008

Hoje irei despir o casaco aos versos rimados,

Bombeio o sangue nos versos naturalmente,

Como se pudesse pairar num sonho e flutuar

Por cima das águas azuis e transparentes,

Onde a rima flutua e não a pedra

E os salgueiros voluptuosos dormem

 

Acordei com o desejo que era capaz de florescer

Como passa velozmente uma imagem, oferecendo

A ideia da flor, da árvore, do fruto,

Colorindo a terra dum verde vivo, quase líquido

Onde havendo eternidade à frente, possa deitar-me

E repousar nos ombros do tempo

Das horas em que a vida me chamava.

 

Escrevo literalmente às Escondidas,

Porque não dei o passo pequeno de gigante

A minha vida está naquela poça de água;

Tenho o direito de chapinhar na minha vida

Tenho o direito de salpicar a minha vida,

Deixá-la nos muros, nos carros, nas pessoas

Que passam desconhecidos sem identidade

Buscando o que não busco, pensando o que não penso.

 

Escrevo ininterruptamente às Escondidas.

Que me condenem milhões de olhos,

Fixos na direcção oposta onde repouso os olhos,

Vidrados por tanta pobreza de espírito,

Completamente embriagados pelo vinho do dever,

Onde sonho Baco a rir-se das nossas vãs façanhas

Descubro por completo o meu completo egoísmo

Escrever é estar sozinho. Eu sou Ilha Perdida,

No dorso do mar de gente, no meio do nada,

Rodeado pelo sal das tristezas, das angústias,

Cercado pelo vastíssimo e misterioso Universo.

 

Ah, este ter penas somente para sofrer,

E não tê-las exclusivamente para voar,

Esta correria louca de chegar não-sei-onde,

Este perder o lugar na galeria sem teatro

Este escorrer das chuvas que vão de encontro mar

(Pelo menos iria vê-lo finalmente!...)

Ó rodas que não giram e tornam a não girar,

Ó verso que não escrevo por medo ou vergonha,

Ou fases lunares na dificil felicidade,

Ou frases sem eloquência diluídas no ar,

Ó meu cansaço arrastado como um saco,

De tesouros esquecidos no tempo dentro de mim,

Ó lugares visitados raramente, rapidamente

Ó rigor dos Invernos no seio da própria vida

Ó nomes das coisas que me escapam pelas mãos

Que agarram palavras como areia, como folhas,

Ó museus por entrar ou por ficar à entrada,

Teleféricos por ir de encontro ao meu destino,

Eu trancarei as portas à minha voz sumida,

Guardada na gaveta da minha alma de mogno.

 

Ficará o que queria dizer porque não posso,

Deixar o que não quero. Serei o que escolhi,

Vendando os olhos às palavras que voaram

Sem ânsia nem queixume, sem a noite que virá…

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