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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

O Clube

Estou cercado de demónios vigilantes
seguem-me os passos leves estimam onde vou
ignoram o que cozinho no tacho da mente
que o falcão peregrino do sonho voou

rodeiam-me as árvores verdes que oscilam
entre o vento do Norte e o vento do Sul
há homens locomotivas que descarrilam
sob o céu impassível indiferente azul

a garrafa de água continha no plástico
rótulos de sedas de mensagens proibidas
o mundo abraça-me, parece fantástico
mas a morte sinistra brinca às escondidas

rodeado de tédio remorso e solidão
é inútil pensar-se na mudança de rumo
sabes a carícia que doma o coração
mas nunca provarás de mim amargo sumo

somos descartáveis para a causa do tempo
o tampo desta mesa é gasto nos labores
mesmo arranhas céus de cor de um céu Dezembro
serão derrubados por ocultos favores

Sepulto-me em papel no verso a tinta preta
Progride, sem que atinja os altos cumes brancos
A bússola avariada guia-me à deserta
Montanha onde existem gigantescos bancos

no início do verão processam-se soturnos
sentidos latejantes de típicos vagares
sou réptil rastejando num pulsar nocturno
sou estéril no sentir das coisas salutares

nasci para estar fora de elevados círculos
a minha maldição é amar as coisas belas
sou sócio no clube só de seres ridículos
que buscam a Beleza sem lhes porem trela

 

Nome e morada da infância

Eram iguais a estas sombras
de verdes e castanhos escurecidos
no lugar onde viviam os meus avós
de luz do sol esclarecida
violentamente nítida

lembro-me quando era miúdo
dava conta da geometria das sombras
e dos ruídos que os pássaros faziam

perto da casa dos meus avós
vivia a Ivone na casa dos seus.
os pais dela iam buscá-la nos
fins de semana. Gostava tanto dela
que assistia da janela a ir-se embora

triste por ficar sozinho
suspenso num sonho poético.

ainda hoje a procuro quando lá vou
olho sempre para ver se a vejo.
mas já lá não está, nem o primo dela
nem os avós
nunca mais a vi
nem ninguém conhecido

Ivone é o nome da minha infância
e a morada a rua onde os meus avós viviam
basta sentir a frescura das sombras

dos plátanos, choupos e oliveiras
o cheiro verde da relva cortada
o murmurar das águas, das chuvas
do uivar do vento nas janelas
vencido pela saudade de visitar a rua
onde os meus avós moravam
onde ainda moro no coração

 

O mendigo

O pobre homem de barbas brancas em balbúrdia 
pediu ao balcão do vício um copo de vinho
que lhe abrisse a pestana de manhã, disse ele
esbugalhando os olhos tristes, tortos
pupilas baças em ruínas
o borrão do cigarro brilhava mais
não estava ali para fazer perguntas
decidido como se a miséria e a imundície

lhe dessem força no braço de ferro
entre ele e o martírio do tempo

sentado era uma ilha na cadeira velha

se alguém se aproximasse logo estremecia
não de medo nem de frio nem de raiva
mas como folha caduca no início do outono
diria um urso que descesse a encosta
e viesse da caverna fria
parecia doente, corpo e mente
tossia tanto, tossia tossia
parecia bicho frágil a recolher-se do mundo
esbarrando com a cabeça na realidade
sem identidade não dando
contas a ninguém, amealhava invernos
e noites sem riso sem luar, escavava túneis
dentro de si e dos outros com perguntas
quem seria, o que teria feito, acontecido
e num redemoinho de vento outonal
a minha poesia desvalorizou
rasguei o papel e fui-me embora

que teria feito que valesse
a pena pesando-lhe

 

O norte e sul da cidade antiga

Os rostos eram de condenados vivos
descartáveis e submissos do lado sul
da cidade em ruínas muito antiga

o tom de pele dos índios os bigodes
amarelados unhas pretas imundas
sorriem de cansaço físico perto do fim

do lado moderno da cidade antiga
Haviam rostos limpos pareciam escolhidos

Que descartariam outros do lado das ruínas

De pele pálida de espectros fantasmas
fumavam rindo alto e escarneciam
de quem lhes servia vinhos aromáticos

a violeta não descarta o cardo
nem a madressilva despreza o choupo
ou a água as baleias polvos e sardinhas

a verdade depende do ponto de vista
amanhã virão técnicos especialistas
reflectirem a fundo sem perceberem nada

 

Os homens das mudanças

carregam templos às costas sem se queixarem
transportam cinzas, levam livros, levam grifos,
carregam labirintos de Dédalo sem darem
exaustos parte fraca, gritam que estão vivos.

e suportam insolências sem se importarem
de qualquer um que comprou casa e lá não vive
costas esmagadas do peso sem se vergarem
estão do outro lado do muro onde sou vivo

da fronte pigam-lhes suor mãos em carne viva
dias meses anos o tempo não é mais tempo
maldita condição imposta que nos priva
carregarmos só aquilo que nos pertence

 

Camões

Define-se a grandeza do poeta
Dos céus por onde o engenho seu andou
Camões pela beleza que sonhou
Tornou-se pela língua o predilecto

Imenso amor por sua pátria amada
Que noutros tempos pátria tinha altura
Deu-lhe sangue e suor, desenvoltura
Atinge a fama nunca antes sonhada.

Camões que de alcançá-lo é impossível
A menos que o tremendo amor que tem
O poeta ultrapassá-lo conseguisse

Camões fez o impossível ser possível
Fazendo com que a língua fosse mãe
que o mundo português falado ouvisse

Português, um idioma

Tem sons do mar que sabe a sal, sabe a saudade
que floresceu seguindo o céu olhando o mar
na pronúncia consegue acordes tão suaves
tem ritmos de caravelas a navegar

desses seis filhos tão notáveis do latim
nascia o mais simples o mais distinto a falar
visitamos países distantes no fim
ouvimos português com vontade de chorar.

Maleável polifónico musical
sem esquadrias e métricas rasgadas
tem qualquer coisa de língua sentimental
faz com que as pessoas se sintam amadas

 

Sobre a medicina

E assim heróis se fazem mansos mudos
Incrível, já não creio em quase nada
Fez-me a loucura avessa uma emboscada
A argumentação de tudo com estudos

Comprovem que esses estudos foram feitos
É um conceito muito americano
Há uns tempos o livro de São Cipriano
Servia facilmente estes conceitos.

Todavia temos dores de barriga
Os médicos só receitam comprimidos
Para maleitas dolorosas infinitas

Foi sempre abrigo amigo a medicina
Mas andam para aí uns desconhecidos
Que nos falam de vacinas como fajitas

Sobre a desumanização

Esse amor de rosas e champanhe
De dúvidas de dádivas de dívidas
O amor televisivo de rebanho
Oxida o aço duro às nossas vidas

ocultos mentirosos compulsivos
Compram jornais ricos sensacionais
Mudam-nos os processos cognitivos
desumanizam-nos os animais

Tentei que a tolerância em vão viesse
Não se confundam deuses com sucesso
Erro endeusar-se alguém de carne e osso

Quis que o bom senso perto aqui estivesse
Mas só chegou-me o bálsamo do verso
Que mãos cruéis nos esganam o pescoço?

Ansiedade

Que cavernosa noite com a cor do crude
De tinta permanente derramada em mim
Sem represa a quebrar-se nem água no açude
Nem uma brisa inquieta me traz o jasmim

Que insónia me domina, acorda, Valentina
Que bela adormecida do beijo adormece
A noite diluiu-se em barro e barretina
Ó pavorosa noite que mal me acontece? 

Há quem lançar consiga ao mar do esquecimento
Há quem no mar encontre o polvo esverdeado
Acerta e sintoniza as agulhas do fado

Leva-me ao manicómio estou a dez por cento
Sou balão a deslocar-se no ar inacessível 
Estou a sentir que vou explodir num dirigível

A rapariga que pedia mais cerveja

a adolescente embriagada rastejante
na sua mão o copo de plástico vazio
com voz de brisa leve tímida pediu
que lhe vendessem mais cerveja refrescante

voltava copo cheio ao círculo de amigos
pedia por tabaco, haxixe, o que lhe dessem
como corça pedindo aos lobos que a comessem
exibia os seios como o alvo ao inimigo

de súbito subiu-me a náusea entristeci
como se desejasse não sentir mais nada
ficasse ali no chão um réptil que rasteja

tão fresca primavera como nunca vi
trazia o equilíbrio de sereia encalhada
a rapariga que pedia mais cerveja

A rapariga que pedia cerveja

A palidez mortal retrato da inocência
a brancura da pele das estátuas antigas
dois olhos imploravam verdes por clemência
que lhe vendessem cerveja a ela e aos amigos

diria uma flor a desabrochar na vida
os amigos faziam-lhe círculos e riam
com fósforos acesos no olhos de vício
diziam com olhares ébrios que a fodiam

esvaziava e enchia o copo de plástico
nos dedos segurava o odorífero cigarro
saindo-lhe dos lábios virginais o fumo

havia qualquer coisa nela tão errático
como perdida não soubesse a que se agarra
se à alegre juventude, se à noite sem rumo

 

O maior predador

IMG_20210117_173557.jpg

Meu espírito descia na audácia das aves
rente às águas quietas do rio se têm fome
escrevia no lodo acrobático meu nome
Para lembrar, quando descesse às escuras caves

não cairei na escada que escrevo poesia
por não saber se é poesia o que escrevo
fui abatido a tiro como esquivo cervo
de longe olhava o rosto que de mim se ria.

o rosto era do Tempo, incansável predador
medidor feroz com mandíbulas de hiena
chegará inevitável o último suspiro

olha a fotografia, é o tempo, meu amor
que as mágoas e remorsos não valem a pena
foi de raspão, temos tempo, ainda respiro

 

Pessoas ainda mais

IMG_20210526_214518.jpg

sou cúmplice com mais 7 biliões
nessa energia primitiva e rara
sangremos juntos como Mirmidões
dando início à íngreme escalada
pedindo por clemência à azul excelência
os vermes falam no inédito comício
vejo-os nesse crime incontinente
cegos nos guiam ao mar do suicídio
aos que multicolores se abraçavam
inspiram-me esse amor sincero e livre
desprezo essa ambição viver em Marte
por ser desprezo por todo o ser vivo
cravo os meus dentes no pescoço da Arte
por dar sentido à falta de sentido

Outra vez pessoas

IMG_20210601_141949.jpg

São como nesta selva os animais
desde a formiga, a águia, o tigre, a cobra
que uma pessoa noutra se desdobra
raros diamantes brilham especiais

uns primam p'la tranquila inteligência
uns pela catastrófica estupidez
uns à sombra da árvore sensatez
uns queimam-se ao sol da falsa aparência.

uns loucos, mentirosos compulsivos
melancólicos complexos, uns festivos
os rostos que por mim tantos passaram

lembro os que me inscreveram na memória
Como um poema um autógrafo uma história
mesmo os que nunca de mim se lembraram

Pessoas

IMG_20210601_224047.jpg

Pessoas! tantas como as verdes folhas
das árvores tantas como as belas flores
pessoas de alegrias e dissabores
que me olharam fixamente como me olhas

pessoas tristes ternas delicadas
sensíveis com seus rostos desiguais
incríveis com suas histórias musicais
pessoas belas, feias, maltratadas

biliões! somos já tantos tantos tantos
pessoas de altos charmes e de encantos
moléculas na vida que destoa

os que amei puro e desapareceram
os que deixei de ver nada disseram
amo as pessoas as pessoas as pessoas

 

Declaração de não dívida

Eu Pedro anónimo administrador
relativo a dois mil e vinte um
solteiro bom rapaz, trabalhador
no prédio nº 10, não o 21
na rua professora e tal Helena
nesta linda cidade não pequena

declaro que o vizinho cá de cima
morador no segundo andar direito
por quem, vá lá, eu nutro alguma estima
mesmo não sendo o homem mais perfeito
tem pagas as despesas de condomínio
até ao fim de Junho neste domínio.

pagador bom morador até simpático
viveu cá desde o ano dois mil e quatro
julgava-o arrogante e antipático
carrancudo como sola de sapato
viveu com o seu filho e esposa amada
declaro e assino que não deve nada.

informo que nunca ofendeu ninguém
se alguém o fizesse ele ignorava
pois cá no prédio há quem de besta tem
uma costela que já a endireitava
para aprender a ter educação
que mais se ganha em não ser fanfarrão

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