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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

O combatente

 

 

Na verde Bucovina que amo tanto

um idoso abordou-me como o sol

e saudou-me.

trazia nos olhos os horrores da guerra

apertando-me vigorosamente a mão

como só os poetas o fazem entre si

 

não se conteve.

e sobre o enrugado rosto

rolaram-lhe vítreas as lágrimas em mim

contou-me, trémulo (tremia tanto)

que combatera na dura guerra

contra o reino da Morte

pelo reino da Vida.

 

queixava-se que nunca ergueram

um monumento, uma memória viva

e que pagou ele tudo

honrando os seus amigos

 

eu era um ponto minúsculo

ele era uma miríade de estrelas

eu era um inútil mosquito

ele era um imenso continente

 

estará vivo?

estará vivo?

assim me bate

o coração.

 

a uma espécie

Será esta  a crise de meia idade

tocam sinos, caem sonhos e cabelos

Deixa-me a pensar já na matura idade

que, às vezes, os sonhos, vale mais não os ter.

 

Se existe o puro em mim está no meu filho

no cérebro reina o caos de fogo infernal

Pior é que há pior, ser puro é um empecilho

ser-se livre e digno impossível em Portugal.

 

O pânico dos livros, que sofrem uma espécie

de exclusão social, débil e literária

o tempo é o típico demónio que se ri

à gargalhada da vida ser durável, o canalha

 

por isso eu escrever este poema. É um amigo

criado como um cartão de crédito fictício

milagre tecnológico que é nosso inimigo

criar o que não existe, o vácuo do, ‘só isto’

 

há pouco interrompi o silêncio persistente

vivo oito horas metido numa sacra igreja

e nesse ofício vivo como o penitente

que se penitencia onde quer que esteja

 

não é angústia, é um pânico indefinido

coreografia estranha das nuvens, parecem

famintas leoas no encalço da vítima

nódoa no espírito que não desaparece

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