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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

Um grito

fui posto de parte de círculos mágicos
por culpa própria, à parte ser vencido
gostava dos tempos de tresloucado e trágico
sem amar e ser amado ou anoitecido

 

nas manhãs de verão que nunca me chegaram

nem românticas noites que tenha vivido
foram anjos e demónios que me condenaram
em cada passo dado, um passo corrigido

 

meu blazer de veludo preto amarrotado
do uso, condenado ao lixo, não servia
sentia-me encolhido, para mim, era fadado
às estéticas mais poéticas que recolhia

 

era um escudo de bronze do mítico Aquiles
que repelia opiniões que me causavam danos
das visões prefiro as do nobre Aristides
que salvou vidas às escondidas dos tiranos

 

A minha tristeza nascera há muito tempo
chorei quando sentado sozinho numa mesa
mas não tenho a certeza se foi em Setembro
se era essa minha incómoda natureza

 

nunca enganei um amigo, menos uma estrela
vi cassiopeias fixas presas por arames
um frio assassino ver que a vida é bela
também que sofre hemorragias e derrames

 

levo as mão ao bolsos rotos, qualquer mito
que falta, me emitindo pulsações nervosas
em jactos de cristal cuspidos, como um grito
chamando aflitivos nossas mães extremosas

 

como sentir as palmas das mãos humedecidas
ou o cheiro da terra de manhãs orvalhadas
eu sinto que vivo às cegas e às escondidas
em manhãs sem sol ao fracasso condenadas.

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