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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Países

Corrompe-me por dentro esta mágoa de vidro

Das coisas que supus que fossem diferentes

O amor é impulsivo, iguala o assassino

Como o tigre tritura a carne entre os dentes.

 

No século vinte e um, a mágoa é uma tortura

Diz-se da ansiedade ser fatal mortífera

O amor sucumbe novo, o ódio, esse perdura

Cede e desvanece a amizade infrutífera.

 

Há lobos na cidade em luxuosas casas

Mas nunca passam tempo a contemplar o lar

Porque se lançam sempre em perigosas caças

A culpa é da gula impossível saciar.

 

Por isso inventam histórias de deuses, messias

Que virão sossegar quem vive em desassossego

A luz do Oriente é fogo de artilharias

A marca do Ocidente é ferrugem do ferro.

 

Não sei se é deste céu vestido cor do luto

Ou do pavor da morte que me encolhe a vida

Ou do sabor que tem o tempo quase mudo

Cada vez mais silêncio bebo antes da ida

 

Uma devassa orgia digna de pinturas

Dessas ébrias nações que vivem como reis

A derramarem vinho sobre as sepulturas

A urinarem loucos sobre as sábias leis.

Chuva de versos

O meu rosto parece a obra do acaso

Um desastre de Goya, um esqueleto que dança

Que luta desigual entre Deus e o Diabo

Ora vem tempestade, ora vem a bonança

 

Tornaram-se-me os dedos doidos insensíveis

De tanta tinta preta escrita em papel branco

Mas afinal que são meus versos senão gritos

Os meus sentidos dormem trémulos a um canto

 

Não sei se deste tempo, céu de cinza mate

Como se fosse noite, sem que rompa o dia

Há rostos com a cor da Lua e alma em Marte

Já não há poesia, há só tecnologia.

 

O mundo está errado porque estou errado

Viesse um raio de sol que só me iluminasse

Tornasse hilariante o filme aborrecido

Um verso caído do chão que me levantasse

 

Vago, sem tristeza, tão pouco alegria

Com laivos de criança que ama os abismos

Deixei-me fascinar por quem não se fascina

Por meus trágicos versos cheios de romantismo

Vivo

Perante o pavoroso medo a aconchegar-se

Na manta de veludo, gato nos teus pés

Há solidão maior que ouvir a eternidade

Estendida e sensual num longo canapé,

 

Do tempo a reanimar-me, a ver se descortino

Contos de horror e dor, que existem para ler

Pedinte o gato mia, ávida a ave pia

Pergunto quantos dias faltam para sofrer.

 

Não haverá notícia nos jornais nas ruas

Nem vigílias ou velas, frases decorativas

Nos muros, no solo que abre à minha espera

A sua ávida boca, ó Morte vingativa

 

Vingas-te no homem por não teres a carne

E sangue, amas o belo sem que saibas bem

Porquê sentir que existe o belo imenso à volta

Sentisses o pavor por ti própria também,

 

Como colher diamantes nas manhãs de orvalho

Estrelas na erva espalhadas nova joalharia

Ó vida, eu hei-de amar-te até ao último instante

Ó Morte, quantos dias dás para que viva?

Bocejos

Respondo a um dever com um longo bocejo

Entre tigres ou lobos que a floresta tem

À sombra do querer, indeciso no ensejo

De caminhar incerto rumo a um certo além.

 

Hora de deitar fora inúteis velharias

distante inutilmente ausente no querer

Se fosse amealhar sorrisos nestes dias

Viria um sono triste, exausto de sofrer.

 

Cansado do vazio sem pejo ou romantismo

Vagueio silencioso p'las ruas do Tempo

Armei na poesia uma tenda de campismo

Pelo conforto igual ao sol no mês Dezembro.

 

Um livro com a capa simples, cor laranja

A víbora a enrolar-se no meu tronco duro

De árvore, a ver se alguma tragédia me arranja

Como temer a sombra ou ter medo do escuro.

 

Durmo a pensar que faço um mal maior, que é ter

Sofreguidão sem fim amar as coisas belas

No jogo amoroso, deito tudo a perder

Por não ser autor de romances e novelas.

De passagem

Não, estou de passagem, nunca estive aqui

Voaram quatro anos em voos de morcego

Rancor não guardo à sombra da árvore em ti

São as garras do ódio, ao mesmo tempo, o medo

Não, estou de passagem, nunca estive aqui

 

Não, não estou diferente, sempre fui eu mesmo

Com rosto pleno de susto, e cinzas no olhar

Caminho, lentamente, sou o mês Dezembro

Nos ramos das árvores, no escuro, a murmurar:

“Não, não sou diferente, sempre fui eu mesmo”

 

Sim, sou mais à noite, quando a noite vem

Vestida de imortal nocturno de Chopin

Vivo à procura de algo que a vida não tem

Serei no tempo inculto busto de Rodin

Sim, morro de dia, quando o dia vem...

A barca

A tristeza da infância abate-se sobre mim,

Mau prelúdio da sinfonia que me espera

Ignoro último dia que me rasguei assim

Por que imaginas tu como ferir a fera?

 

Os livros arderam, perderam-se os rascunhos

De poemas sobrenaturais não deste mundo

Esmurrei as faces do destino, feri meus punhos

Perdi-te eternamente no ínfimo segundo.

 

Venha a barca, barbudo, que euros aceites

Não suporto a crítica. Estivesse eu do outro lado

Seria alto poeta, Deus, feroz herói

 

Leva-me, homem sinistro pelo rio sombrio

Como fosse vencido, em campo, derramado

O sangue neste amor, que internamente dói

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