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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

Meu filho, meu poema

Não abre, não se envolve, não remexe

Potente imaginário, já não há musas

Só multidões furiosas e confusas

E uma tísica árvore que não floresce

 

Também, em mim, uma saudade cresce

Que germinando vai dores agudas

E vozes que me gritam: «não te iludas

Ver a vida ajoelhada a teus pés.»

 

O céu da minha infância é que valia

Que está no rosto puro que me vale

Mais do que a própria vida valiosa;

 

É ele a resgatar-me num só dia

Com sua doce voz, que a minha cale

Tornando a dura vida radiosa

Para ti, leitor

Deixei, por decisão do meu futuro,

De sonhar poemas, flores e amarguras

Guardei em frascos de vidro mil ternuras

Para ti, leitor, depois de dias duros.

 

Deixei, por ocasião dum quarto escuro

Haver poesia à solta pelo chão

Deixaste de pegar na minha mão

Como se dono fosse de império impuro.

 

Gaguejo, ao versejar, já não molesto

Minha mole tristeza, ao ver descendo,

Pelas ruas de Lisboa este meu canto

 

Sobra-me a vida. Sinto que não presto

Sou quem se rende a quem não vai vivendo

Encosto-me ao que fui, a qualquer canto

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