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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Aqueles Olhos Verdes...

Dois olhos verdes, dois prados de esperança,

Quem vieram dar-me versos só de vê-los,

Que fixos, meus olhos são de criança

Se espantam por olhá-los. São tão belos!

 

Dois olhos, dois jardins na minha alma

Onde rego lindas flores com meus versos,

Contemplo os olhos verdes que dão calma

Ó mar verde onde os meus ficam submersos.

 

Dois olhos verdes claros como a água,

Dum paraíso ao longe onde se avista,

Ilhas verdes, perdidas, no oceano,

 

Dois olhos penetrantes que dão mágoa

A quem se lança ousado na conquista

Ou quem ouse fixá-los por engano.

O Render do Verão

Por fim, lá se encontraram, o quente Verão

Sentou-se na esplanada verde à espera

Que viesse o Outono ameno em solidão

Antes do Inverno frio que desespera.

 

Ocioso, o Verão estende a mão ao Outono

Boceja preguiçoso ao fim da tarde,

Que o sol ao fim da tarde já tem sono

Isto porque mais cedo mais não arde.

 

Num diálogo agradável, cordial

Na frescura que anuncia tempo incerto,

Assinam papéis fim de festival,

Fechando o céu que foi no Verão aberto.

 

Recebe o Outono os códigos dos ventos

Os catálogos das novas colecções

Das árvores que inspiram pensamentos

Melancólicos e alegres sensações.

 

O céu alinha o sol na cerimónia

O verão ocioso acena e diz: «Adeus!»

Com o olhar vago das noites de insónia

Diz para o Outono: Enfim, ordens de Deus!

Reinado

Diz-me: onde encontrarei luz clara no futuro,

Eu, que do futuro, não mais quero saber,

Que vida, esta, meu Deus! Eu sei que já só duro

Não sou mais regedor do meu reino-querer.

 

Naquele luxuoso cruzeiro imponente,

É onde minha alma é importante passageiro

Atirai-me bóias ao mar azul, ingente

Sou náufrago, aposentado marinheiro.

 

Ó ilhas verdes vivas, esmeralda vibrante

Quantos povos nativos para conhecer,

Ó dia pensativo onde o passei errante,

Não quero mais saber de saber de querer.

 

Vivi a vida inteira, viagem inacabada

Sou sonho envolto em bruma, névoa no ar pairando,

Sono que oprime ver a terra maltratada,

Flutuo no ar excessivo, e cá se vai voando.

 

Se ao menos avistasse verde no semáforo,

De ter que haver moral em tudo o que se faz...

Os dias evolam-se como fumo de cigarro,

No ar frio no tempo que em cinza se desfaz.

 

Infortúnio no esmero: dobrar a natureza

Maléfica, insípida, amorfa e imoral,

Alívio algum me vem da boca da Beleza,

que me alimenta bem, e que repele o mal.

 

Que ervas daninhas crescem no jardim,

Da alma, onde decoro e nada enfim se esquece,

Vem, noite espalhar-me na alma teu jasmim,

Pois esta vida-aranha um mal viscoso tece.

 

Onde me insiro? Sei que em lado algum me insiro

Onde me encontro, se em todo lado me perco

Minha sensibilidade é a lira onde suspiro

Canções engolidas pelo árido deserto

Gravações

As frases que escrevemos são por vezes,

Os beijos que prendemos por pensarmos,

Sem darmos esses beijos que são leves,

Se em nosso peito nunca os prensarmos,

 

Os versos escritos na hora amargurada

Não ficarão na história se guardados

No peito se romper-me a madrugada

A vida, sem que sejam divulgados.

 

Os versos são sorrisos de criança,

Que ficarão trancados no invisível

Espectros flutando pelo vento

 

Sejam alento, amor, ódio, esperança

Digam o que existe em mim de indizível

Gravando nas pedras um sentimento

O Perfume

Um rastro de perfume antigo, requintado

Visitou-me, gentil, trazendo-me um romance

Do rosto que absorvi, da boca que provei

Vejo-a nitidamente como em alto transe.

 

Tinha os lábios de rosa rubra que inspirava,

Carnal sentimento que à morte dava vida

A única que as minhas palavras soletrava

Aquela que comigo o beijo dividia.

 

tinha cabelos longos cor da terra como

A seara ondulante dança ao som do vento,

Levava a minha mão macia ao terno pomo

Parecia que o mundo parava num momento

 

Bela como a Lua quando no céu sobe

Bela como a fonte de água que dá vida,

Bela como a Lua quando despe o robe

E vagueia pela terra, lúcida e perdida.

 

Bela como a flor que tem a cor vermelha

Bela como a nova e fresca primavera,

Bela como o céu que acende uma centelha

E inunda a terra com a cor de uma quimera.

 

Há no seu rosto enigma e no olhar mistério,

Como por magnetismo chama por meu nome,

Tem ar de imperatriz, na alma vasto império,

Na boca, tem o pão que mata a minha fome,

 

E nos cabelos lisos noites de luar

E no seu corpo esbelto, a linda serenata

Seguindo mais pra sul, só posso imaginar,

Um templo ou sacro altar onde toda a dor mata

O Farol

Num latejar dormente da minha alma em brasa,

À tarde, quando o sol tem quebras de tensão

E inunda, do horizonte, de ouro a minha casa,

Puxei dum papel branco e ouvi meu coração.

 

Os dias são réplicas dos dias. Que proveito

Inútil perguntar se Deus realmente existe,

Mais que viver a vida com vil preconceito

e assim, contrariamente, à alegria resiste.

 

Rastejo como a cobra pelos milheirais,

A ver se descortina um calor renovável

Para extrair do peito notas musicais

Mudando meu discurso actual, desagradável.

 

A culpa é da opressora saudade que aperta

Como a lúcida imagem da funesta amante

Com mágicas carícias suas me desperta

E que me impele a ser poeta degradante.

 

Em qualquer sítio, hoje, é como se não estivesse

Minha alma, como a ave da árvore se lança

Solta-se do meu corpo como não vivesse,

Fixo os olhos no infinito doce de criança

 

Meu corpo é um velho prédio em ruínas. Lentamente

Todo o esplendor que havia e que tão mal esbanjei,

Um beija-flor sem flor, tigre na jaula ausente

Qual árvore me dá sombra em que me deitei?

 

É como se descesse a escada em caracol,

Na mesma direcção que nos conduz o vício

Nos tira por capricho o dom de ver o sol

À deriva no dorso mar, mar de suplício.

 

Calai-me estes papéis com vozes sepulcrais,

Com cantos de sereias de lábios vermelhos

Pintados com batom púrpuro, musicais

Que vivem com olhos cravados nos espelhos.

 

Como a sacerdotisa e bela Pitonisa

Que no Templo de Apolo ficou sem emprego

Minha alma flutua no ar, águia indecisa

Como se o ninho fosse o fardo que carrego.

 

Virá o Outono triste varrer secas folhas

Que são versos caídos do meu sentimento,

E tu, rosada orquídea, diz, por que me olhas

É por tocar-te as pétalas em pensamento?

 

Para onde foi morar minha espontaneidade?

Em que caverna obscura vive meu querer?

Na gare, em que comboio me chegou a saudade

No cais, em que navio atracou este viver?

 

Farol do meu destino avariado no mar

Um dia hei-de trocar-te as lâmpadas fundidas

Mas não existem mais navios pra iluminar,

A minha alma dissolve-se em almas rendidas

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