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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Solo de Trompete

Agosto 21, 2008

Foi desde que me deram para as mãos,

Um grande amigo, um mágico trompete,

Que me tornei pupilo da solidão,

Foi desde que fundei impérios vãos

E à Musa lhe arranquei belo corpete,

Para bem perto estar do coração.

 

Foi desde que entornei a taça inteira

Pela garganta seca, inconformada

De haver mais qualquer coisa maga à volta

E desde então que a vida me é matreira

Bondosa, austera, vil, na caminhada

Frenética corrida de alma à solta.

 

Nem sempre fui sozinho. Sempre, não.

Mas não mais quero ser se rodeado

De gente sem que gente seja e esteja

Na oposta margem, terra de ilusão,

Se bem que me confunde este meu lado

Onde meu corpo morre, a alma festeja.

 

Foi desde que agarrei sujo papel,

E fez-se espelho à frente; ele agarrou-me

Como se me puxasse para si

Mais doce que esse milagroso mel,

Sem saber como, a vida resgatou-me

A ver o que na vida nunca vi.

 

Era invisível, máquina poética

Tomando a Liberdade lentamente,

Como crescendo em solo de violino,

Ou flâmula de fogo, ou vela bélica

Ou lâmina volúvel diferente

Que me tornei proscrito do destino

 

Traçando-o, sempre, sempre, em linha incerta

Para dizer-te, ó vida, o quanto subo

Aos céus, e caio quando me transformas

Num pó dourado ou pomba, descoberta

Miragem visto por estreito tubo

De várias cores, infinitas formas.

 

Foi desde que senti minha viagem,

Por mim como se fosse o globo azul

Um lenho mais pequeno que uma flor

Que usei a silenciosa linguagem

Bebi mais que uma vez ventos do sul

Mostrando em mim no sol novo esplendor.

 

Grato me sinto a ti, maestro amigo

Ó professor Raul que tantas vezes,

Desesperavas só por me ensinar,

O que eu tocar ouvia como abrigo

Durante tantos anos, tantos meses

Como se fosse um deus vivo no altar.

 

Foi desde que não queria ser igual

Como se fosse um mago envolvimento

Como se desejasse aproximar-me

Da imensidão do céu, como se um mal

Tão nítido qual claro pensamento,

Estivesse perto para consolar-me.

 

A música, a música sempre a música,

Novo membro no corpo me assaltando

Noites seguidas novas melodias,

Até que fosse tudo menos física

Pontes em fogo, em chamas lagos, dando

Meu próprio Mundo novo, luz aos dias.

 

E desde que a vaidade tomou conta,

E o sonho converteu-se em pesadelo

Agora colho o que há muito plantara

Sonho atrás de sonhos, que remonta

Os tempos como um vento no cabelo

Soprado pela vida que ignorara.

 

Ah, coisas que me faltam sem faltarem

Verdes canções sinceras não maduras

Ah tempestade que no mar despoja

Quantas loucuras só para me amarem

Ásperas músicas, canções obscuras

Eu era areia fina, do mar, esponja.

 

Levem-me longe versos pela graça,

Da solidão dos claustros, das masmorras

Além da linha exacta do horizonte,

Por tudo o que farei, e agora faça,

Não quero que lume novo me morras

Até ser cinza ou pó e talvez… fonte!

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