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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Estranha amizade

Talvez detenha dons de repelir,

Quem flor se julga, límpida água pura.

Que seja verme ou óleo! Meu sentir

  É mais que vós a voz que bem me apura

Ou mal. Que importa? Guarda esse desprezo

Que te alimenta como a uma cria,

Que em livre peito cresce só, mas preso

  Não fico nesse bem que mal procria.

Dou mãos à minha amante solidão

Com rosto infeliz, com alma feliz

  Vivendo, solitário, vagabundo;

Não ficarei mais nesta escuridão

De achar-me a perguntar: “Que foi que fiz,

  Para encontrar-me fraco e moribundo?”

Jardins de Infância

A sensação de nunca aqui ter estado,

No lugar de há muito tempo onde cresci,

Das árvores, do chão verde molhado,

Das folhas outonais… nada esqueci;

   De ter defronte o sol de olhos fechados,

Nas mãos, as nuvens níveas pra sonhar

De encontrar-me entre perdidos e achados,

Nada tendo para me lamentar.

  Gastos pelo tempo os altos muros

O verde musgo, as árvores, os jardins,

Meus sonhos eram verdes nesta altura;

  Alguns caminhos claros, outros escuros,

Viver momentos sem pensar nos fins

Que claridade nesta noite escura!

soneto sobre a Infância

Ela era alegre e, livre, caminhava,

Na selva desenhada no seu sonho

Ela era como a estrela que brilhava

Na escura imensidão no mar tristonho,

 

Ela era a borboleta que pousava

Nas flores mais mimosas que sorriam

Sempre que ela chorasse e demonstrava

Tristeza pela dor que outros sentiam.

 

Ela era a minha infância alegre e triste

Que uns choram de lembrá-la, outros perdê-la

Dos empurrões que vida nos vai dando;

 

Na sombra, ela era a luz que nunca viste

Criança em mim, que um dia, eu hei-de vê-la

Soltando as mãos que a alma vão me apertando

Flutuação

Tenho defronte a imensidão na tela

Pinto nela o retrato dum proscrito,

Que não se cala e julga a vida bela,

Dançando um Quebra Nozes no infinito.

Preparo agora amor a minha herança,

Nas horas superiores de cansaço,

Concede-me num instante, cisne a dança,

Nas águas transparentes. Um terraço,

No mundo onde escrevesse a vida inteira,

Numa hora apenas, só, num verso apenas,

Um eco a propagar-se na certeira

Eternidade. Actor em várias cenas

Dentro de Vénus estar apaixonado,

Cismando ver o filho adolescente,

a aljava esvaziar das setas, dado

Às contradições ásperas da mente,

Alívio que se eleva e leva o vento,

Canções que nunca cansam de se ouvir,

Estalar dum copo do meu pensamento,

No chão escorregadio de sentir,

Deixa-me ver o que não posso ver,

Agora neste instante em que passamos

No teatro humano, deixa, deixa ter

O mais que nesta vida suspiramos,

Um sopro agudo e mágico de alívio,

Dois corpos nus sinceros sem sarcasmo

Cativo o desprender do seio níveo

O espasmo sincopado dum orgasmo,

O ritual igual depois que estamos

Metidos nos lençóis, comprometidos

No amor que cisnes juntos nós dançamos

Condenados, anónimos, despidos

Na sombra esclarecida duma noite

Vestida com as roupas de um cometa

Em que se sente ouvir lá fora o açoite

Dos ventos desordeiros, noite preta

Gelada, crua, débil, silenciada,

Pelo silêncio débil impossível

Pela Lua adoecida amarelada

Beijando ternos lábios do Invisível

Aqui no meio imundo e miserável

Debaixo dum céu lívido opressor

Onde Dezembro o sol é adorável

Onde sucumbe a terra de langor.

Explico-me em verso. Não há quem me explique

Nem equações, matrizes, derivadas

Teorema milagroso que se aplique

Minhas ânsias inúteis, alteradas

Em frente, sigo em frente, abrindo portas

Na terrível escuridão de ser-se humano

Memória, meu valor, nas horas mortas

Para extinguir o rasto ao meu engano

Quem nunca mendigou na porta errada

Amor, qual vendedor de enciclopédias

Sentindo mão jocosa a ser fechada

Bebendo escuridão nos claros dias?

Quem nunca sentiu ódio por ninguém

Deixando entrar um ódio corrosivo

Tomando o leme à barca que não tem

Um forte capitão que grite: “eu vivo!”

Discórdia

Não me chega, amor, o espaço que agora sinto,

Fechado no Universo absurdo que há em mim

Vivo para explodir várias vezes num minuto

É cedo colocar uma placa em que diz fim.

 

Nada me chegará que venha a ter. Não, nunca!

Nem é demais o céu sem fim, azul, eterno

Há vários horizontes na cidade pra atingir,

Há povos dentro de mim que vivem sem governo.

 

Nem no cume da juventude achei-me belo

O suficiente para conquistar um novo mundo

Lívidas sombras num crepúsculo resplandecente

Ah, se pudesse explodir num só segundo.

 

Nem no átrio da Liberdade me sinto livre,

O suficiente para resistir ao fogo, ao vento,

Criando magia de enraivecer-me em verso,

Nas mãos ilusionistas do meu pensamento.

 

Como não poder entrar na mente do gato,

Esquivo, detentor daquele olhar divino

Salto de pedra em pedra, rocha em rocha, em busca

Da explicação discordante do desatino.

 

Sabe-se a morte por leitura de um jornal,

Aberto, manchado por notícias pavorosas,

Sabe-se que tudo terá seu fim em tudo

Aceito o entristecer do esplendor das rosas.

 

Escrevo para dar comigo mais em doido,

Adoro endoidecer se o sol vem subornar-me

Com ouro nas paredes, passeios e avenidas

Na altura em que me sinto um saco a esvaziar-me.

 

Pudesse a alegria de Mozart contagiar-me,

Como me contagia quando a oiço e vem,

De súbito lembrar-me a lágrima a Beleza

Se estúpida a tristeza uma lágrima não tem

 

Eu quero ver aonde vai o meu poema,

Ver se na vida pára e anda na eternidade,

Parecido com saber o fim de qualquer filme

Que se ama, e se descobre o rosto da Amizade.

A Loucura e a Razão

Não quero que se acabe a adolescência,

Amor, dentro de ti. Que se abram portas

Guardadas pelas mãos da consciência

Torcidas por almas devassas tortas,

Não quero que se acabe a primavera

Na tua essência cândida e florida,

Que anda sempre na sombra e desespera

No porto, na chegada, na partida,

Não quero que se acabe o que se acaba,

Logo no início de cada verão,

Não quero! E não querer, logo desaba

As terras desta minha solidão.

 

Não quero virar costas ao que posso

Encarar no presente e no futuro

Mais tarde o que se torna cova ou fosso

Ou cavernoso abrigo frio, escuro

Não quero resgatar-te da tristeza,

Sempre que, amor, se crave suas garras

Quero ver-te florir, a Natureza

Quero amarrar-te assim como me amarras

Prender-te num abraço que se afaste

O denso nevoeiro que nos esfria

E um beijo por dar nosso não se arraste

Durante a noite escura ou claro dia.

 

Nunca se acabe, nunca, nossa infância

Dentro de cada peito em que já mora,

O dissabor na vida, uma constância

Amarga (em uns fingida) e duradoura,

Sejas sempre um jardim que me convida,

A respirar a exalação das flores

Que nunca te dês, anjo, por vencida,

Como a tantos amargos dissabores,

Nos rostos que me assustam de assustados

Esculpidos por cinzel da solidão

Sejamos sempre juntos namorados

De mãos dadas: Loucura e a Razão.

Não tem que ser

Não tem que ser assim a poesia,

Um manto negro à noite a desdobrar-se,

Antes, amigo, a vida a revelar-se,

Na mesma noite, a transformar-se em dia.

 

Não tem que ter o brilho da safira,

Nem ágata ou topázio ou esmeralda

Mas tem que ser uma alma que arde e escalda

Vibrando os sons que tiro desta lira.

 

Já não sei quantas vezes me perdi

Nos versos que escrevi sem me encontrar

Dizendo realmente quem eu sou;

 

Foi sempre um preconceito que despi

A saída no silêncio pra gritar,

Que ‘inda a minh’ alma ninguém ma levou.

Um não querer

Não quero que haja em mim mais que um segredo

De havê-los muito o mundo anda às escuras

Um saber que se encerra em sepulturas

Sábio é o que do saber não tem medo.

 

Não quero que haja em mim mais que um degredo

Possa vencer tristezas e amarguras

Com tais doces e amorosas ternuras,

Bem vindas na manhã logo bem cedo.

 

Sei mais do que não quero do que quero

Não sei mais nada. E sinto que sou sábio

Nada sabendo, enfim, nada querendo;

 

Sinto que amanso assim meu desespero

Sentindo humedecer melhor teu lábio

Longe de querer mais do que vou tendo

estes versos

Gostava que meus versos fossem dedos

Suaves como o toque do veludo

Entrando no jardim dos teus segredos

Onde me entrego, onde nunca me iludo,

 

Gostava que meus dedos fossem versos

Feitos para tocar-te, meu amor

escritos no papel branco, diversos

Para cantar-te sempre em teu louvor.

 

De que me servem se me ficam longe

Dos olhos dos leitores que não tenho?

Ao menos haja quem, amor, mos leia

 

Meu templo, em ti me encerro, como um monge

Meu mar onde navego com meu lenho

Tu que me encantas com voz de sereia

A Origem

Onde me fica presa esta expressão,

Quero deitá-la fora e não consigo

Barco encalhado em porto de ilusão,

Mendigo pobre sem seu nobre abrigo?

 

Faço do lar riquíssimo palácio

Dos livros grandes filmes de cinema,

Desfaço a vida inteira num poema

Sem ser Virgílio, Ovídio, Homero, Horácio.

 

Que escrevo então? Das coisas, das leituras

Dos livros escritos ou de quem os escreve

Da alva sensação da fria neve

Eu pinto sem que pense outras pinturas.

 

Pergunto diariamente o que me inspira,

Perfumes, músicas, poemas, rostos

Palavras desiguais, milhões de gostos

Sinto o suor da Beleza que transpira.

 

Meu deus! Em cada coisa há uma fonte,

Chegam-me pensamentos em manadas,

Mas eis que o Tempo me dá só guinadas

No volante se alcançar quero o horizonte,

 

E fixo os olhos bêbado de esperança

No tecto azul sem fim onde me deito

No lar do Tempo, abro a janela e espreito

A Lua que me inspira. Como ela dança!

Como estás?

Se não estás bem não finjas que estás bem,

Pior é conseguir um fingimento,

Já basta estar à sombra do tormento

À espera desse bem que nunca vem.

 

É o mesmo que esperar de alguém um beijo

Tão preso aos nós confusos da vontade

Quando no fundo quer-se na verdade

Que nos beijem primeiro. Isto é desejo.

 

Melhor é não guardar o mal que temos

Pior é quando a alguém o entregamos

Pensando que depois mal não teremos

 

Também se nosso bem não devolvemos

No rosto do sorriso que apertamos

Depois que esse sorriso já não vemos

Nocturno

Fiz-me rochedo nesta noite escura,

A ver se não te ouvia suspirar,

Para prender-te os braços com ternura

Para poder prender-te com o olhar,

 

Desfiz-me em água, em fogo, em terra, em ar

Onde pudesse em ti plantar meu beijo

Um beija-flor, linda flor, repousar

Em ti, meu bico agudo de desejo.

 

Mesmo no nosso ninho morno e terno

Há muito mais querer do que queria

Mas, no poder, traçaste-me limites;

 

Tornando extinto aquele lume interno

A chama que me leva à Poesia

À espera que não mais no amor, me evites

Escritos no Céu

Eu tenho escrito até de mãos atadas

Meus versos desmanchados em infinito

Encosto o ouvido ouvindo aves aladas

A cantarem meus versos de proscrito

São melodias novas deste peito

Escura nuvem, bando de estorninhos

Que me levam no fundo sem preceito

Traçar nos céus azuis novos caminhos.

 

Tenho expressado a vida nestes versos

Vestidos com farrapos; são mendigos

Vadios que nas ruas estão submersos

Num mar de indiferença cheio de perigos

Que importa que imortais ‘inda não sejam

Que arranquem só sorrisos a meu filho

Bondosas bocas que mãos rudes beijam

Como querer que o sol tenha mais brilho.

 

Tenho vivido alguns momentos de ouro

Outros de prata, bronze, outros de nada,

No palco às vezes, outras no pelouro

Com a alma adormecida ou apaixonada

Eu piso o palco sem que espere aplauso

Vindo duma plateia amorfa e seca

Deixo-me ir pelo rio do acaso

Onde a minha alma se apaixona e peca.

 

Meus versos de mil cores são as luzes

Que embelezam cidades no Natal

Beleza, que me chamas, me seduzes

Corta-me sempre os pulsos do meu Mal

Já tempo não terei para cantar,

A minha história inteira embelezada

Antes que o tempo me venha fechar,

As portas de diamante à vida dada.

 

As coisas têm bocas que nos beijam

Espinho agudo doce da saudade

Meus pensamentos, sinto que festejam,

Num palácio erguido de imensidade

Eu hei-de construir uma jangada

Largá-la neste rio amplo corrente

Guiado pela estrela, minha amada,

Levado pelo vento de quem sente.

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